terça-feira, 29 de dezembro de 2009

dez bons filmes de dois mil e nove


Toda lista é e sempre será tendenciosa - veja artigo. A cadela ainda não assistiu todos os filmes de 2009, mas com o caldo que tem seleciona 10. Vetamos propositalmente os 2% já malhados pela indústria. Estão fora também bons blockbusters como Watchmen e Star Treck. Vamos ver mais um pouco da moeda, com a relevância de uma cadela verde. Aliás, não é verde por ser de outro mundo, mas por buscar um pouco além da generalização e por consequência falta de singularidade  a que a comunicação totalitarista tenta nos coleirizar.

A lista não é cronológica, de baixo para cima ou vice versa. Vem de lugar nenhum e vai sei lá para que canto. Nem numeração tem! Ordem alfabética é legal? Então pode ser.

A Onda (Die Welle) - Por falar em totalitarismo, esse filme canta a bola e lança grande questão para nossos tempos de "liberdade".

Amantes (Two Lovers) - No fim, legenda, ópera e um gosto amargo na garganta - a profundidade incomoda. É a vida.

Bronson (Bronson) - Tom Hardy dá show na pele do condenado mais famoso (e insano) da Inglaterra. Música clássica e violência ao melhor estilo da boa e velha laranja.

Deixa Ela Entrar (Låt Den Rätte Komma In/ Let the Right One in) - Mantém o nível da arte e beleza da  mitologia dos vampiros, desrespeitada pela febre Crepúsculo em primeira instância (uma espécie de Malhação com adolescentes dentuços, e nada mais).

Distrito 9 (District 9) - Ficção genial, empolgante e realmente nova, como não via desde o oriental O Hospedeiro.

Inimigo Público n° 1- Instinto de Morte (Mesrine: L' instinct de mort) - Muito se falou de outros inimigos públicos neste ano, mas não confunda, aqui Vincent Cassel destrói na primeira parte da cinebiografia de Jacques Mesrine, bandido que assustou a Europa nas décadas de 60 e 70. O elenco conta ainda com o grande Gérard Depardieu.

O Bom, o Mau e o Bizarro (The Good, The Bad and The Weid) - Inusitado remake de Sérgio Leone, e já cultuado longa este inusitado faroeste coreano.

Os Piratas do Rock (The Boat That Rocked) - Este londa divertidíssimo presta uma bela homenagem às revoluções das rádios rock piratas dos anos 60 na Inglaterra.

Simonal - Ningém sabe o duro que dei - Competente documentário sobre simona, do paraíso ao inferno.

500 dias com Ela ((500) Days of Summer) - Marc Webb assistiu os clássicos, chamou o casal perfeito e refez a roda. Sim, é uma comédia romântica, e irresistível.

sábado, 26 de dezembro de 2009

os dez discos mais ouvidos em dois mil e nove



2009 não trouxe grandes surpresas no cenário musical, mas sempre bate aquela vontade de listar tudo no final do ano: melhor show, melhor filme, melhor livro e agora vou listar os 10 melhores álbuns, ou pelo menos os mais ouvidos (por mim) em ordem aleatória, porque esse ano ninguém mereceu primeiro lugar em nada, infelizmente.


1. Noble Beast - Andrew Bird
2. My Maudlin Career - Camera Obscura
3. I Can Wonder What You Did with Your Day - Julie Doiron
4. The Law of the Playgournd - The Boy Least Likely to
5. The Crying Light - Antony and the Johnsons
6. Rules - The Whitest Boy Alive
7. The Eternal - Sonic Youth
8. It's Blitz! - Yeah Yeah Yeahs
9. Love Is Not Pop - El Perro del Mar
10. El Radio - Chris Garneau

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

encontros com woody allen - parte final

No último dia da mostra, domingo, dia 13, me despedi de Woody Allen em grande estilo, assisti Broadway Danny Rose (1984), filme de uma fase de ótimas produções de Allen, que acabou sendo fracasso de bilheteria e sumindo em meio a outras obras. Porém, o longa, em p&b é um grande show de comédia e conta com uma das melhores atuações de Mia Farrow, senão a melhor. Depois revi Husbands and Wives (Maridos e esposas, 1992), que como já disse no post passado, é incrível, e não sei quando terei a oportunidade de revê-lo. Aliás, se alguém souber onde posso encontrar o DVD desse filme, agradeço. Zelig (1979) foi a última exibição, mas fechei minha maratona com Annie Hall (Noivo neurótico, noiva nervosa, 1977), e depois de asisstir a tantos espetáculos, esse filme ainda consegue me convencer que é a melhor obra de Woody Allen, porque é a partir dele que Allen fala com mais propriedade, cinematograficamente, e passa a brincar com os roteiros de uma forma que posteriormente tornou uma de suas referências. Ele é uma ponte daquele Woody Allen que fazia comedias stand-up e o Woody Allen cineasta. Exagero meu? No final, o filme recebeu aplausos da fiel platéia.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

encontros com woody allen - parte 2

A primeira coisa que fiz quando cheguei ao CCBB semana passada foi pegar o meu catálogo com 477 páginas recheadas de críticas, resenhas, entrevistas, fotografias sobre a obra e vida de Woody Allen (além de um belo postêr de Manhattan). Para adquiri-lo, você pode trocar 5 canhotos de ingressos ou pagar R$ 20.


Na quarta-feira, 25, resolvi assistir a todos os filmes que estavam em cartaz, já que não tinha visto nenhum deles. The Curse of the Jade Scorpion (O escorpião de Jade, 2001) não conseguiu arrancar muitas risadas dos expectadores. Fraco. Já Manhattan Murder Mistery (Um misterioso assassinato em Manhattan, 1993) conta com Diane Keaton, fato esse que eu poderia parar de escrever por aqui, mas essa comédia/mistério é genial, você acaba se surpreendendo a cada cena com essa história que somente alguém como Woody Allen poderia ter criado, pois sabe trabalhar muito bem e com muito bom humor quando o assunto é morte. A Midsummer Night’s Sex Comedy (Sonhos eróticos de uma noite de verão, 1982) passou batido. Fechando o dia com Love and Death (A última noite de Boris Grushenko, 1974), também com Diane Keaton, é um dos primeiros filmes do cineasta, mas ao contrário de Bananas, por exemplo, não faz o gênero da comédia pastelão. Ótimo roteiro, ótimos diálogos.

Já no sábado, 28, tive a oportunidade de assistir ao primeiro filme (se é que posso chamar assim) de Woody Allen, What’s Up, Tiger Lily? (O que há, tigresa?, 1966). Fui sem saber do que se tratava e tive uma surpresa. Allen faz a dublagem apenas de um filme trash japonês (me corrijam se estiver errada), o nome original ele também não cita. É de morrer de rir, pelo menos pra quem gosta, por exemplo, de Tela Class, do Hermes e Renato, programa em que eles faziam o mesmo, aliás, acho que esse filme deve ter servido de inspiração, não?

Essa semana, 2, assisti Celebrity (Celebridades, 1998), em preto e branco (não consigo gostar de filmes novos em p&b, soa tão artificial). Allen não atua neste filme que, ao mesmo tempo que nos faz rir, consegue deixar uma crítica sobre a futilidade de repulsivos astros norte-americanos. Qualquer semelhança é mera coincidência.

Em seguida Husband and Wives (Maridos e esposas, 1992, foto acima) me pegou despreparada. Neste mesmo ano Mia Farrow e Woody Allen se divorciam (escândalo Soon-Yi Previn), o filme é lançado em agosto e a separação ocorre em setembro. Apocalíptico porque no filme, Mia e Woody encenam um casal que no final, acabam se divorciando. Acredito ser um dos filmes mais bem escritos e mais intensos do diretor. Quando se fala neste longa, ele em si, não é a primeira coisa que vem a cabeça, mas sim uma série de fofocas, escândalos, etc. Portanto, antes de assistir, não quis ler nada a respeito para que a história que Allen viveu não influenciasse a história do filme.
Muitos não gostam dos momentos em que Woody Allen tenta ser sério, ou mais reflexivo. Eu até entendo, mas essa obra é realmente um caso a parte. É biográfico, ou mais biográfico do que os outros filmes, portanto, natural.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

encontros com woody allen - parte 1


Woody Allen por Steve Schapiro
Não aguentava mais reclamar. Estava tudo muito parado. A Mostra Internacional de Cinema não foi boa pra mim, já que não comprei antecipadamente meus ingressos. O que me restou foram os filmes em cartaz. Não achei justo. Queria algo mais digno do que encerrar este ano assistindo Lua Nova e ficar a deus dará na espera de boas estreias. Foi então que ganhei meu presente de Natal antecipado:

Dia 18 de novembro começou a mostra A Elegância de Woody Allen no CCBB de São Paulo (Rua Álvares Penteado, 112). Os paulistanos têm a oportunidade de ver e rever a obra completa (ao todo são 40 filmes, além de cursos e debates) do cineasta até o dia 13 de dezembro. E um dos motivos para eu não ter comentado esse evento aqui antes é que, felizmente eu estava por lá, no centro velho de São Paulo, no charmoso prédio do CCBB, correndo atrás dos ingressos, que, estão à venda somente no dia da exibição do filme em cartaz.

Comecei minha maratona assistindo Alice, ou Simplesmente Alice (1990), protagonizado por Mia Farrow. Woody Allen dedicou este papel especialmente a ela, que, convenhamos sempre fez jus aos memoráveis personagens que Allen a concedeu. Aliás, lembrei de Mia Farrow e o longa The Purple Rose Of Cairo (A Rosa Púrpura do Cairo, 1985) durante toda a semana, pois meus encontros com um dos meus cineastas favoritos estavam se repetindo, não sabia quando passaria dos limites, fazendo com que Woody Allen saísse da tela e mandasse-me fazer algo da vida. Passei pelas ácidas sátiras de seu primeiro pastelão (na minha opinião) Bananas (1971), assisti ao coloridíssimo Sweet and Lowdown (Poucas e Boas, 1999), filme que marca a fotografia de Fei Zhao (por isso as notáveis cores que desconhecíamos de obras anteriores) e a cômica atuação de Sean Penn, que interpreta Emmet Ray, um guitarrista de jazz. Depois de perder algumas sessões, fechei a semana no sábado à noite com o musical Everyone Says I Love You (1996). Nunca havia assistido e não estava muito confiante de que iria gostar (não acreditava que Woody Allen conseguiria fazer um musical característico a sua obra), mas me enganei. Não entraria na minha lista de favoritos, devo confessar, mas esse filme não é pedante em momento algum. Uma história de família, amores e desamores com uma acidez bastante dissolvida. E outra. Seria impossível falar mal desse longa (de uma fase bastante conturbada do cineasta) quando ele acaba numa festa de Natal onde Groucho Marx é o tema principal e todos usam bigodes.
PS: Woody, nos encontramos na quarta-feira e, prometo que essa semana não vou chegar atrasada para nenhum de seus espetáculos.

Continua...

pra quem gosta (ou não) de futebol

Estádio por Andréia Regeni
Sábado nublado e lá vou eu fazer uma matéria (contra minha vontade) sobre o Museu do Futebol, alí, embaixo do Estádio do Pacaembu, na Praça Charles Miller. Com aquela preguiça cheguei lá com a câmera e não, não pude fotografar. “Temos que preservar nosso acervo”. Matéria sem foto? Eu quase dei meia volta para ir embora, mas não desisti. Entrei. Aquele era o último dia em que estava acontecendo uma exposição de camisas de times. Aquilo me impressionou, cada camisa tinha uma história diferente, e o mais interessante de tudo era ver aquelas camisas representando apenas o seu time, não logos de grandes marcas patrocinadoras. A minha viagem no tempo começara ali. Ao lado, uma parede repleta de botões, aqueles de futebol de botão mesmo. Lembrei de filmes, de histórias, daquelas que meu pai contava de quando era garoto...
Subindo para o segundo piso, pude ver também capas de revistas, jornais e outros periódicos de várias épocas. Visitei a sala da torcida, onde são projetadas telas com imagens de torcedores que amam seu time. Na Sala das Origens, vi centenas de fotografias que contam a história do futebol no Brasil desde 1927, englobando também fatos políticos e culturais de diversas épocas. Com legendas curtíssimas nas laterais das fotos, não pude saber quais eram os nomes dos autores daquelas obras que mais me chamaram a atenção no museu. Aliás, achei que faltou um pouco de informação textual em todos os ambientes do local. Mas a viagem ao túnel do tempo valeu a pena. Uma viagem à era do rádio homenageia os principais locutores que narravam os jogos pelo rádio, que até hoje possui seus fiéis ouvintes. No Rito da Passagem, você confere, além de imagens e vídeos de todas as Copas do Mundo em que o Brasil participou (desde 1930), fatos que marcaram a história do nosso país e do mundo, como a Bossa Nova, o governo de Getúlio Vargas, a queda do Muro de Berlim, e também me deparei com minha época: Mamonas Assassinas, Spice Girls, o Plano Real, Bichinho Virtual, a posse de Lula...
Com meu tempo se esgotando (já que o museu fechou mais cedo no sábado devido ao jogo do Corinthians), joguei uma partida de pebolim, dei uma olhadinha na vista para as arquibancadas do estádio (do qual nunca tinha visitado) e fui embora. Não vou dizer que a partir disso me envolvi com o esporte, mas com certeza passei a respeitar mais a memória do meu país, que é e sempre foi apaixonado pelo futebol.

Informações de serviço do museu em: http://www.museudofutebol.org.br/

Créditos das imagens: Andréia Regeni

domingo, 22 de novembro de 2009

para oskar, meu maldito!


Permita que eu entre, compartilhe e sufoque nossa solidão. Eu que vivo neste corpo congelado, aprisionada eternamente nas confusões de meu tempo parado no tempo.

Tão real quanto o que você vê sou eu, sua, e por isso, agora mais leve a angustia de viver.

E será assim, nós dois, num contorno menos gélido e de mais ternura, na valsa de poucas mas confortantes palavras; declaradas e sinceras.

Me abraça com amor, porque realmente me abraça, e não a uma imagem errônea e distante, que apenas afasta e machuca.

Então fui convidada; reconhecida e salva. Então disse "obrigada", e o ouro reluziu seu brilho aos meus olhos. Voltei, me deitei, e em você encontrei meu refúgio.


*Palavras inpiradas na bela película Deixa Ela Entrar (Låt Den Rätte Komma In/ Let the Right One in, 2008).

um trago de demônios




Tenho uma porrada de coisas pra fazer. Não faço nada. Enrolo no tempo que não tenho, se é que existe mesmo essa de tempo. Dias vão e vêm, e no relógio mais um irmão gêmeo, no reencontro diário dos seus ponteiros. Preciso de uma reanimada. Esse ano que chega ao fim foi de auto- sabotagem; fiz tudo e não fiz nada. Preciso voltar ao fundo, transar com o mundo. Mais um semestre terminando, e eu enrolando..

Mais um dia, calor infernal! Mais ponteiros, calor infernal! Na livraria da rodoviária do Tietê bato o olho num nome. Lourenço Mutarelli. Memória, memória, memória... Cheiro do Ralo. Nem li o livro, mas putaqueopariu! Curti pra cacete o filme dirigido por Heitor Dhalia. Meus últimos papéis coloridos se vão. Valeu a pena. Ia gastar em breja mesmo. Os camaradas fazem a vez neste fim de semana.

Abro o livro, acabou. Foi num trago só. Eu num mergulho que fazia falta, entre o café e o calor infernal.

Esse foi realmente um achado. Narrativa seca, dinâmica e visual. É quase um roteiro a forma de escrita. Com passagens de tempo e espaço sem enrolação. E nem precisa, tamanho o domínio do cara, a compreenção é natural. Muita ironia, ilustrações que fazem pensar, acidez, humor negro, um cruzado direto nas idéias. Mutarelli solta o verbo e nos apresenta aos demômios de Miguel, o protagonista, neste "... antiromance policial, em que tenta mas não consegue investigar seus desejos, sendo arrastado inexoravelmente a uma trama que envolve pedofilia, possessão, seitas bizarras e múmias mexicanas". Como entrega perfeitamente o prefácio.

O livro acabou
Calor infernal!
Música, cinema, livraria.
Investigo em busca de um novo mergulho pra não queimar na explícita rotina.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

aprendendo a voar com the boy least likely to



Aqui sempre foi assim e a regra não vai mudar. Nada de Golias tentando destruir nosso pequeno mundo. Estamos crescendo e perdemos o medo de altura. Perdemos o medo de voar. Não faz muito tempo que aprendemos a voar e isso tem sido ótimo. Deixamos de ser pequenas criaturas. Agora somos balões coloridos e alcançamos as nuvens que, para quem ainda tem dúvida, são realmente feitas de algodão. Não sei se te contei, mas o xilofone está com as crianças menores e as minhocas. Ganhamos um violão e pulamos corda. Corda de violão. Mas não deixamos a melodia escapar. Devo contar também que existe uma garota...mas o amor ainda me assusta, acho que a todos nós aqui, mas isso não importa. Ainda somos meninos que desenhamos bigodes de caneta no rosto e sonhamos apenas com um final feliz, um final de contos de fadas.

Sobre o disco the law of the playground, segundo disco da dupla, lançado este ano.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

9 - mais uma salvação



9- A Salvação tem direção de Shane Acker, produção (e forte influência) de Tim Burton, além de estrelas como Jennifer Connely, Christopher Plummer e Elijah Wood nas dublagens.
A história começa sem muita enrolação, e nem precisa, pois é uma prévia de algo já visto em obras anteriores como Matrix(1998); Humano VS Máquina. Sob um céu violeta desperta 9, um boneco estranho que logo encontra seus pares; todos feitos a partir de remendos dos restos da humanidade. O grupo é formado por um líder repressor, um sábio, um medroso, gêmeos que catalogam e estudam o passado, um carrasco ignorante, uma guerreira, e um desenhista médium, além do personagem central, cada qual reconhecido por sua numeração. A trama se passa num sombrio mundo pós- apocalíptico, em que apenas os bonecos e uma máquina, da qual se escondem, restaram. Todos vivem sob a alcunha do medo, sem nem sequer conhecer suas origens, até que 9 desperta. Ele será o questionador, aquele que chega para desvendar as terras além- carverna, como na clássica narrativa de Sócrates.
Esta pesada (no bom sentido) animação remete em alguns monentos a algumas obras clássicas, como o Mágico de OZ (1939), num dos poucos momentos de tranquilidde dos personagens em que se divertem ao som de "Over the Raibow" interpretada por Judy Garland, em um lugar que lembra em muito o cenário P&B do longa que apresentou Dorothy e cia, aliás, primeiro aparentemente destinado ao público infantil, mas que trazia simbolicamente claras referências ao clima do pré- guerra, puxando sardinha, claro, para a terra do Tio Sam.
9 é uma animação desafiadora e de uma criatividade espantosa na criação visual, mais uma animação digna de reverências, ao lado de grandes recentes como Wall - E (2008) e Coraline (2009) do próprio Tim Burton, padrinho dessa produção. Ao fim deste conto sombrio, nos pensamentos a reflexão- de que cada um de nós, além de fazer parte de um todo, somos o próprio todo, o medo e a coragem; a inteligência e a ignorância; a repressão e a liberdade. Mundos distintos que buscam equilíbrio; se vencer para crescer.

uma trilha para kubrick




Quinto álbum de estúdio da banda britânica Muse, com vocês The Resistance:

 I
"O homem respira fundo, depois começa a caminhar na rampa rumo ao globo multicolorido, rumo a um mundo consfuso. Caminha na linha da paranóia, que hora se esquiva, hora tenta combater um inimigo poderoso, invencível, pesooal, de existência tal qual uma fênix, que renasce em cada fragmento de si mesmo. Um inimigo que bombardeia imagens e informações na velocidade da luz. Indissociável, que precisa ser combatido, mas não pode ser derrotado, pois são duas faces dependentes, de uma só moeda de carne."

II
"O homem se veste, se pinta e carrega suas armas. Vai ao campo de batalha, se fere, se levanta, escreve uma carta e guarda no esquecimento de um coração empoeirado pelo mundo de papel. O homem chora e sorri, tentando encontrar resquícios de uma humanidade falida, cheia de pílulas, tarjas e contatos sem rosto. Perseguido pela sombra, tenta a alma aquecer; um grito sufocado quando próximo da natureza de metal."

III
"O homem dos gritos surdos está em reverência eterna, curvado, frente a caixa de Pandora, extensão do corpo sem lógica. Sua alma aprisionada por uma tal polícia dos karmas, que faz plástico do corpo e do espírito"

FIM

Em seu quinto álbum, o Muse entoa um épico sobre uma guerra pessoal, conspiratória, que tenta traduzir estes tempos de paranóia e uma certa liberdade obrigatória imposta pela ditadura branca. Por todo álbum ecos temáticos de homens que atearam palavras nas cortinas do controle social, como Huxley e Orwell, através de música clássica, sirenes e rock combatente de arena, num caldeirão cyberpunk que remete até mesmo a Queen em alguns momentos. Bellamy e Cia compuseram uma bela trilha para Kubrick converter em imagens, em algum lugar, numa realidade alternativa.
O Muse nada no oceano da vida, tentando explorar novas ilhas, tentando encontrar os homens, e melhor não voltar, pois nas praias seguras, em terra firme, morremos de tanto "viver".

domingo, 18 de outubro de 2009

ode à uma geração bastarda



Por assistir a obras tão incríveis do passado eu tenho o costume de desprezar a minha geração, essa que copia e cola tudo por não ter mais o que inventar e se intitula pós-moderna. Soa muito triste acreditar nesta ideia de que nada de inusitado pode surgir, de que carregamos esse fardo de décadas de ouro nas nossas costas e não podermos seguir adiante com a nossa sem dependermos do passado.

E por momentos especiais como o que tive ontem, digo que não precisamos deixar de acreditar nessa geração que parece perdida. Assisti ao novo filme de Quentin Tarantino, Bastardos Inglórios (Inglorious Bastards) que pelo menos pra mim, é um dos maiores representantes do cinema pós-moderno.

O filme começa com aquele típico diálogo longo que nos deixa com os olhos fixados na tela na expectativa do inesperado desfecho. Dessa vez quem é satirizado por Tarantino é o movimento nazista, Alemanha, década de 40. Ao longo da história se trava um conflito entre os fiéis súditos de Hitler e um grupo até então anônimo de judeus que lutam contra os nazistas, os Bastardos Inglórios.

Tudo é tratado com muito sarcasmo, o me fez lembrar da polêmica comédia Ser ou Não Ser (To Be or Not to Be, 1942) do alemão Ernst Lubitsch, a maior sátira ao nazismo filmada em plena ascensão de Hitler. Mas as influências cinematográficas vão longe, desde filmes western a clássicos italianos, Sergio Leone em especial, não apenas em cenas carregadas de informações, como também a trilha sonora, desde alusões a filmes de bang-bang até a clássica Cat People (Putting Out Fire) de David Bowie.

Saindo um pouco deste ângulo geral, gostaria também de fazer uma observação sobre a atuação de Brad Pitt, que interpreta o tenente Aldo Raine, líder dos Bastardos. Ele mergulhou de cabeça para interpretar um personagem cômico, assim como fez no último longa dos irmãos Cohen, Queime depois de ler (2008). Ele tem conseguido se superar com esses personagens que felizmente são o oposto do que ele costumava fazer. Ganhou meu respeito.

153 minutos muito bem aproveitados de muita ação, violência e diálogos incríveis despertaram em mim aquela sensação que temia nunca mais ser desperta em mim, aquela que você fica vidrado, inquieto na poltrona do cinema, esperando quase que roendo as unhas para ver o que vai acontecer. Talvez o efeito ainda não tenha passado, assisti o filme ontem a noite, talvez quando eu assistir de novo não vai ser a mesma coisa, mas. Eu pude sair do cinema com um certo orgulho de fazer parte desta geração bastarda.

sábado, 10 de outubro de 2009

listas

Na semana passada, o site Pitchfork soltou uma lista dos 200 melhores álbuns da década (antes da mesma acabar), em que argumentou muito bem os motivos que levaram cada um a sua respeciva colocação. Tudo bem, mas daí reflito; " não é muita prepotência querer apontar quem é melhor que quem? Qual a relevância de uma lista dessas quando cada ser humano é um mundo completamente particular?" Cada um com seus gostos e tal... com bons fundamentos elegeram do ponto de vista de um reflexo generalizado da sociedade quem melhor definiu estes tempos globalizados- no caso Radiohead e seu Kid A (2.000)- em que vivemos, mas ainda assim existem muitas partes a serem analisadas, e a parte pessoal de cada um? A falha herdada da falida Teoria Funcionalista; a massa que apaga o sujeito.

No fundo, no fundo as listas são uma tentativa de enquadrar modelos. Controle. Aliadas inevitavelmente ao gosto pessoal de críticos e sua experiência de mundo; apenas SEU olhar sobre o mesmo. As listas ajudam a eleger representantes de uma geração, e a deixa sem rosto. Um Oscar que elege o melhor ator quando os concorrentes representaram papéis diferentes! Um VMB que "dá" a falsa liberdade de escolha. Pura contradição, quando podemos votar apenas em artistas escolhidos previamente. Esquema mercadológico isso sim.

Eu faço a crítica, mas confesso que sempre gostei de listas, e também que começo a querer me impor; um controle comunicativo não mais só no inconsciente, pois hoje em dia elaboro minhas próprias listas.

1° ? 2° ? 3° ?...

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

faroeste coreano


No passado o diretor japonês Akira Kurosawa teve longas servindo de referência para a reinvenção do western; dentre eles Yojimbo- O Guarda- Costas (1961), pelas mãos de Sergio Leone em Por um Punhado de Dólares, com Clint Eastwood. Muitos anos depois a história é invertida, e chega Os Invencíveis, do premiado diretor coreano Ji- woon Kim. Uma refilmagem bem particular do clássico Três Homens em Conflito (1966), do mesmo Leone, com trilha de Enio Morricone, Clint Eastwood, Lee Van Cleef e Rada Rassimov no pega pra capar.
Ji- woon Kim pegou a película de 1966, bateu num Juicer fodão daqueles da Polishop, e devolveu este inusitado e original faroeste coreano. Só assistindo o longa mesmo pra entender como um remake pode ser original...
São mais de 2 horas de adrenalina, hipnotizado por muita ação, o inevitável humor coreano, e muita criatividade no enredo vivido por verdadeiras figuras, através de uma câmera vertiginosa e ângulos inusitados. Fora o estilo único nas cores, no visual do filme, que mesmo quando reconstrói algumas cenas do original, mantém algo autoral, uma personalidade própria.
Os três homens; o bom- um caçador de recompensas (Woo- sung Jung), o mal- um matador de aluguel (Byung- hun Lee) e o estranho- um tipo.... estranho (o impagável Kang- ho Sond, de O Hospedeiro), duelam na Manchúria dos anos 30 pela posse de um mapa do tesouro, ainda com o exército nipônico e coreano, e alguns russos!
São cenas incríveis de ação, como a do Mercado Negro e a da batalha no deserto; praticamente um épico, ao som de "Don't Let Me Be, Misunderstood" do Santa Esmeralda. A violência e o humor caminham juntos em cenas sensacionais como a da "faca cega" e a do "zigue- zague" do estranho para desviar das balas no Mercado Negro.
No fim uma surpresa mantém o sorriso de satisfação ainda mais largo, pra ir dormir leve e grato, por ter assistido um filme memorável, desses que dão gosto pela ousadia contra o engessamento que poucos tem coragem de trazer à luz.

domingo, 4 de outubro de 2009

dhalia deixa o orgulho do cinema nacional à deriva



O novo longa-metragem do cineasta brasileiro Heitor Dhalia é o terceiro trabalho de sua carreira, que apesar de estar começando a andar (em termos de filmes lançados no cinema), já é bastante polêmica: suas duas primeiras obras, Nina e O Cheiro do Ralo, são bastante introspectivas (para não dizer obscuras) e mergulham sem medo no interior de seus personagens, às vezes utilizando de metáforas que chegam a causar um certo incômodo no espectador.

À Deriva, lançado esse ano nos cinemas (31 de julho), traz consigo algumas das marcantes características do cineasta, já que conta a história (aparentemente simples) de uma adolescente, Felipa (Laura Neiva) e suas descobertas pessoais durante as férias de verão. Ao longo do filme, a garota se depara com a possível separação dos pais e percebe que a história de sua família não é na verdade, tão colorida como costumava ser em verões passados. E é aí que ele vai trabalhar: os tormentos dos pais, as brigas, o amor, o ódio. Tudo isso sem ferir. Desta vez, Dhalia soube dissolver toda a carga de conflitos psicológicos e tudo é apresentado com uma leveza até então desconhecida. Um filme “de família” que pode ser exibido para o grande público. Ou seja, quem quiser que leia nas entrelinhas.

A atuação intensa de Debora Bloch é de assustar. (Pausa para pensar na ausência de bons atores dessa geração). O figurino criado por Alexandre Herchcovitch nos faz viajar para o final da década de 70 (época em que se passa a história) sem esforço algum.

Outro aspecto notável é fotografia de Ricardo Della Rosa. As belas imagens nostálgicas possuem um ar natural/espontâneo que deixam as influências do cinema europeu (contemporâneo, mas em especial nos fazem lembrar da nouvelle vague) transparecer de forma, acredito eu, proposital. E foi aí que encontrei um ponto interessante a ser discutido: o filme é gravado no Rio de Janeiro (Búzios), mas em momento algum senti que aquele filme tinha alguma característica nacional, isto é, dentro do cinema. Apesar de precário, o cinema nacional apresenta um certo “orgulho” em seus filmes, exibindo sempre a realidade cruel do país, como pobreza, tráfico de drogas, violência. Parece que não pode haver poesia, leveza, e se há, certamente é criticado. Seria pura ficção, fantasioso. Dhalia abandona todo esse “patriotismo”, e, ao invés de tentar fazer um filme original/inovador, ele decide fazer um filme bonito e ponto. A trilha sonora de Antônio Pinto é outro fator que indica suas influencias internacionais (lembrei de Philip Glass e Yann Tiersen). É simplesmente uma cópia bem feita, uma junção de tudo o que ele gosta. E deu certo.

sábado, 3 de outubro de 2009

afinal de contas, onde está a crítica?


Existe por traz do próprio filme uma crítica em cima das críticas que viriam a seguir? Será que Lars Von Trier, com este filme está dialogando com Duchamp sobre as pessoas que dão mais atenção pelo seu status adquirido anteriormente do que pela obra do presente em si? Será que "O Anticristo" não é a privada de Lars Von Trier ou eu estou viajando? Ou é preciso viajar para realmente ter uma leitura menos plastificada das obras? Serão vácuos de um homem de respeito (fez pra relaxar, pra disfarçar a falta de criatividade ou pra tentar enganar?)

Sinopse: casal tenta superar trauma da perda de seu filho numa viagem ao meio do mato.
O Anticristo é o novo filme do polêmico Lars Von Trier, um dos fundadores do Dogma 95 com Thomas Vinterberg- movimento com objetivo de realizar um cinema mais realista e menos comercial (como o modelo de Hollywood). Já com o fardo de grandes obras anteriores do cineasta, como Dogville, Dançando no Escuro e Manderlay, este longa chegou na mostra competitiva de Cannes deste ano sob a mira dos críticos sedentos por sangue nobre, e ao fim da sessão foi chupado até o osso sob chuva de vaias, mas acima de tudo, causando.

O problema em discutir um grande cineasta, muitas vezes é olhar tão fundo, procurar tanto, e acabar encontrando (como canta Ian Gillan) fumaça em baixo d'água. -O que você encontrou então espertinho? -O que eu encontrei seu nerd de merda? Eu encontrei Lars rindo da sua cara, ao passear na floresta com seu capuz vermelho sangue, cheio de ironia consigo mesmo e seu vazio criativo, ao falar de uma maníaca sexual que parece ter dupla personalidade (Charlotte Gainsbourg) que passa quase o filme todo com um psiquiátra- entidade; sem fraquezas humanas (Willem Dafoe) numa floresta brincando de médico e passeando por traumas da perda do filho e massacre da mulher durante a história da humanidade,- mais especificamente a caça às bruxas. Toda essa mistureba com muita monotomia e horror gore, mais para confundir do que para explicar; aquela falta de clareza apreciada pelos "cults".

Destaque para a abertura do longa, com uma cena deslumbrante- mais ironia do velho Lars ao dizer "posso soar bonitinho" justamente na tragédia que dá mote aos capítulos entediantes que seguem. Destaque também na atuação perfeita do casal Gainsbourg-Dafoe, perfeitos ao que se propõem nesta especie de cruza da Bruxa de Blair com ShortBus no Set (cinza) de A Dama na Água.

Lynch funciona porque é um sem noção declarado, mas assim, querendo ser levado a sério (talvez não), numa história que deixa constrangimento em imagens desnecessárias e incômodo- não pela crítica mas pelo preço do ingresso-, não rola.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

bresson e a fotografia do agora



Na tarde ensolarada deste sábado fui até o Sesc Pinheiros conferir a exposição de um dos fotógrafos mais influentes do século XX, o francês Henri Cartier-Bresson (1908-2004). Uma seleção de 133 fotografias expostas resumem a obra deste artista que, segundo ele mesmo, não gostava de nostalgia e a enxergava como algo negativo. Nunca imaginei ouvir isso de um fotógrafo, mas quando se contempla a vivacidade de suas imagens, fica fácil compreender.

A história do agora, do acaso, que às vezes, de tão bem enquadradas parecem até que as cenas foram ensaiadas, tamanha sua percepção e domínio do momento. Sombras e contrastes são características de sua obra que não se deixam passar batidas. Ora nos fazem lembrar do neo realismo italiano, ora do surrealismo - movimento que Bresson admirava, e, de acordo com ele, não pelas obras, mas pela percepção do subconsciente, e, diferente de todos os artistas desse gênero, ele conseguiu extrair isso da própria realidade.

A exposição acontece até o dia 20 de dezembro. A entrada é gratuita.

domingo, 20 de setembro de 2009

leite azedo (ou leite derramado)


Aqui vai ser assim: tudo em primeira pessoa. Não sei mais o que é ou não ser imparcial, mas isso também já não importa. E quando resolvi criar mais um blog, dessa vez com meu amigo Wanderley Dias, decidimos fugir dessa palhaçada que vemos por aí todo dia, de críticos que – não sei onde lhe disseram que tem moral para escrever/criticar como fazem, sem acrescentar nada na vida do leitor. Enfim, eu poderia ficar horas aqui divagando sobre isso...
Já que vou falar sobre o último livro que li e que talvez soe como uma crítica, pode parecer que essa introdução pareça contraditória. Mas não. Só vou dizer que penso ao contrário. Ótimos professores me indicaram esta obra, mas não me importa, e sigo agora com minha opinião sobre o novo romance de Chico Buarque, Leite Derramado, publicado este ano pela editora Companhia das Letras:

Relatos de um velho prestes a morrer que dirige as pessoas que o rodeiam no seu quarto do hospital, (filha, enfermeiras, médicos...) as últimas palavras de sua vida. Palavras que se tornam histórias. Mas que, segundo ele, não são histórias de um velho qualquer. Ele, membro de uma tradicional família portuguesa que chegou ao Brasil e construiu seus belos castelos (que a medida que o tempo passa chegam às ruínas).

Não é sempre que alguém se interessa em resgatar nossas raízes, principalmente em nossa literatura, porém de forma superficial, é apenas um romance, que não chega a duzentas páginas, fácil de serem lidas, mas que desagradam a maior parte do tempo. Você torce para o velho morrer logo, pois percebe que aquela chatice que já ouvimos tanto sobre a exaltada vida de ociosidade vinda dos portugueses não acrescentam em nada. O que vale é um nome de família rica, o falso poder. Por mais que se narre a construção de um país, é um ponto de vista muito particular, então de nada vale esse resgate.

Fica fácil compreender porque tanta gente vêm falando desse livro de uma forma tão respeitosa. Sei que a maioria que ler isso não vai concordar, mas resolvi dar cara a tapa. Essa história não vale muita coisa, porém na sociedade pós-moderna que vivemos, de uma geração que vive apenas o presente, qualquer coisa que se diga do passado é sinônimo de repertório, de profundidade.

Quanto à sua construção, uma narrativa em que ele repete várias vezes o mesmo fato, acrescentando ou contando de forma diferente soa interessante, já que se trata de um velho que passa a ter devaneios, achei adequado. Mas como já disse, a linguagem é simples, qualquer pessoa entende, como qualquer pessoa poderia escrever dessa forma, não é nada tão inovador como eu ando ouvindo por aí...

Acredito que os velhinhos são as pessoas que mais nos ensinam. Me desculpem todos vocês, mas esse vai tarde...

sábado, 19 de setembro de 2009

dança eterna

Gostaria de deixar aqui minhas sinceras condolências para a família Swayze, pela perda do pródigo Patrick, e a todos os seus fãs. Fãs dele, que merece muitas rosas no caixão, ele que foi Toni Manero sem maneirices em Dirty Dancing (1987), precedeu a mão na cintura de Jackie em Rose na famosa cena de amor do vaso de barro, em seu ápice, Ghost (1990). Ele, que nos deixou na última segunda-feira, aos 57 anos, após cair diante o embate contra um câncer no pâncreas, após muitas vitórias, já que os médicos deram 1% de chances de sobrevivência por mais 5 anos, e ele multiplicou por 100 tal porcentagem.

Mas na vida, como sabemos, ninguém vence o embate contra a imbatível senhora da foice letal- A Morte! Nem Harry Potter, nem Jesus. Lembranças para você, charmoso Patrick (homem de verdade, como ouvi uma velhinha dizer outro dia numa pastelaria enquanto passava Dirty Dancing ). Finalmente aí, "do outro lado da vida", quem sabe? Lembranças do coelho Frank do Lado B Donie Dako (1998), onde atuou com um iniciante Jake Gyllenhaal, e todos seus queridos e marcantes personagens, eternizados na memória coletiva, que não deixa ninguém partir, na arte que vence a morte. Essa é oferecida para você Patrick: - DJ, tem "(I' ve Had) The Time of My Life"? Então mexamos o quadril e mergulho na nostalgia; som na pista!!

num mundo que não criei (criaram)

Estava eu numa adega esses dias, quando no meio de um papo furado, indaguei umas garotinhas com pose de Rebelde (novela do SBT) se gostavam de Dance of Days, só pra ver até onde ia a patuscada (Collor, obrigado por me ensinar essa palavra).
Uma disse: -Ai, eu gostava, mas agora to ouvindo Guns. Não curto mais; as letras são chatas e o Nenê fala sobre muita coisa diferente, além do pessoal que não tem um visual bonito.
A outra: -É.

Gosto de Guns, não gosto de Dance of Days?!?!!?!?! Tudo bem, gosto é gosto, mas tirando pelo que veio antes e o posterior daquela converssa (sendo juiz da obviedade) elas malemá tinham mentalidade para entender o amor boçal do NX Zer0000000000; e queriam pagar de que compreendiam as palavras do Nenê Altro?!?. Amigos, não sejamos escrotos e hipocritas, o cara escreve bem pra cacete! Tem uma profundidade que aquelas menininhas, que deviam ter acabado de virar mocinhas, soprando um cigarro de cravo e "bebendo" num copo de puro colarinho, já que sequer o viravam para enchê- lo, não sacavam nem fodendo. Criticando a estética visual, o diferente (heloooow, "Blank Generation"), criticando o diferente depois de dizer, "ai, ninguém me entende em casa, sou a ovelha negra". Então saia e vá consumir, compre as contraditórias calças jeans rasgadas. Talvez daqui uns anos, pois exige a bagagem mínima de alguém que já viveu poucas e boas.

E fico fodido, sim (não literalmente), com essa pose falsa para impressionar os radicais (limitados) que só abraçam o estereótipo; valores de uma liverdade celada, vendida. Obrigatória? Espero que notem a tempo antes da frustração iminente da máscara de uma vida, queridas meninas perdidas (como eu, como você).

sábado, 12 de setembro de 2009

heróis que sangram


Watchmen tinha tudo para se tornar (se não a) uma das melhores adaptações dos quadrinhos para o cinema. E assim Zack Snyder (300) o fez, transpondo de forma primorosa o universo deixado por Alan Moore e Dave Gibbons, de acordo com a estética cinematográfica. Um filme riquíssimo, repleto de simbolismo e referência pop, tanto nas imagens – repare em alusões ao clássico Apocalypse Now; “O Beijo”, fotografia de Robert Doisneau; e até mesmo A Santa Ceia de Leonardo Da Vinci- quanto nos diálogos e personagens. E a coreografia nas lutas? Puro quadrinho, com movimentos longos e golpes impactantes.
O figurino é outra sacada genial, estilizado de acordo com a época de cada liga de vigilantes, com os primeiros primeira lembrando realmente os filmes antigos de super heróis como o Superman de 1978, o seriado do The Flash de 1990 e o longa do Capitão América do mesmo ano. Já a segunda liga traz uniformes bem mais desenvolvidos, assim como nos filmes atuais do gênero.
Trilha sonora de primeira com Bob Dylan arrepiando no sensacional prelúdio do longa, e engrossando o caldo de uma premissa cheia de grandes expectativas com “The Times They Are A- Changin", Simon & Garfunkel entoando “The Sound of Silence” na despedida do Comediante, Leonard Cohen declamando a belíssima “Hallelujah”, e outros grandes nomes da música.

O filme é longo, são quase 3 horas- o que é necessário para transcrever a graphic novel publicada entre setembro de 1986 e outubro de 1987. Alan Moore criou e Dave Gibbons ilustrou um mundo profundo, numa realidade alternativa em que Richard Nixon teria permanecido no poder após levar os EUA à vitória na Guerra do Vietnã, e heróis mascarados são uma presença real na história da sociedade, vivendo meio à Guerra Fria, com o país prestes a declarar uma guerra nuclear contra a União Soviética. Complexo e profundo, assim como o próprio ser humano, Watchmen vai além da idéia maniqueísta do herói bonzinho que luta contra o vilão malvado.
Aqui, a história decorre além do bem e do mal; com filosofia, ética, moral, história, cultura popular e de massas. Em uma Nova York futurista-retrô, a idéia de super herói é questionada, o ser perfeito deixa de existir, e essa desmistificação o torna o possível “aventureiro mascarado”, ou “vigilante mascarado”, como os próprios se intitulam, com suas atitudes hora pensadas/hora impulsivas e seus conflitos internos,psicológicos, cheios de neurose e confusão.

O longa é um prato cheio para quem gosta de pensar e tem um pouco de senso crítico. O longa é para quem gosta de efeitos visuais, mas não só de efeitos visuais sem relevância; ação e reação banais, soltas, vazias. Para quem não agüenta mais heróis que levantam bandeiras como um aracnídeo que abraça, quase copula de prazer com a bandeira dos EUA. Ou pior ainda, tamanha a distorção do original com um morcego que diz “Eles não precisam da verdade, eles precisam de esperança”, para dar enterro nobre a um vilão que representa Hitler, Nixon- aquele que se acha acima das leis e por isso pode fazer o que bem quiser. Watchmen questiona o papel do herói na sociedade, visual e contextualmente preciso, como se admirássemos uma flor, pudéssemos respirá-la, respirar seu néctar, ver as abelhas trabalharem, vê- la murchar e cair por terra, outra flor nascer, e assim o mundo também, girando, em constante destruição e renascimento, com suas belezas naturais que dão luz e destroem, com suas cicatrizes, sorrisos e abismos.