sábado, 12 de setembro de 2009

heróis que sangram


Watchmen tinha tudo para se tornar (se não a) uma das melhores adaptações dos quadrinhos para o cinema. E assim Zack Snyder (300) o fez, transpondo de forma primorosa o universo deixado por Alan Moore e Dave Gibbons, de acordo com a estética cinematográfica. Um filme riquíssimo, repleto de simbolismo e referência pop, tanto nas imagens – repare em alusões ao clássico Apocalypse Now; “O Beijo”, fotografia de Robert Doisneau; e até mesmo A Santa Ceia de Leonardo Da Vinci- quanto nos diálogos e personagens. E a coreografia nas lutas? Puro quadrinho, com movimentos longos e golpes impactantes.
O figurino é outra sacada genial, estilizado de acordo com a época de cada liga de vigilantes, com os primeiros primeira lembrando realmente os filmes antigos de super heróis como o Superman de 1978, o seriado do The Flash de 1990 e o longa do Capitão América do mesmo ano. Já a segunda liga traz uniformes bem mais desenvolvidos, assim como nos filmes atuais do gênero.
Trilha sonora de primeira com Bob Dylan arrepiando no sensacional prelúdio do longa, e engrossando o caldo de uma premissa cheia de grandes expectativas com “The Times They Are A- Changin", Simon & Garfunkel entoando “The Sound of Silence” na despedida do Comediante, Leonard Cohen declamando a belíssima “Hallelujah”, e outros grandes nomes da música.

O filme é longo, são quase 3 horas- o que é necessário para transcrever a graphic novel publicada entre setembro de 1986 e outubro de 1987. Alan Moore criou e Dave Gibbons ilustrou um mundo profundo, numa realidade alternativa em que Richard Nixon teria permanecido no poder após levar os EUA à vitória na Guerra do Vietnã, e heróis mascarados são uma presença real na história da sociedade, vivendo meio à Guerra Fria, com o país prestes a declarar uma guerra nuclear contra a União Soviética. Complexo e profundo, assim como o próprio ser humano, Watchmen vai além da idéia maniqueísta do herói bonzinho que luta contra o vilão malvado.
Aqui, a história decorre além do bem e do mal; com filosofia, ética, moral, história, cultura popular e de massas. Em uma Nova York futurista-retrô, a idéia de super herói é questionada, o ser perfeito deixa de existir, e essa desmistificação o torna o possível “aventureiro mascarado”, ou “vigilante mascarado”, como os próprios se intitulam, com suas atitudes hora pensadas/hora impulsivas e seus conflitos internos,psicológicos, cheios de neurose e confusão.

O longa é um prato cheio para quem gosta de pensar e tem um pouco de senso crítico. O longa é para quem gosta de efeitos visuais, mas não só de efeitos visuais sem relevância; ação e reação banais, soltas, vazias. Para quem não agüenta mais heróis que levantam bandeiras como um aracnídeo que abraça, quase copula de prazer com a bandeira dos EUA. Ou pior ainda, tamanha a distorção do original com um morcego que diz “Eles não precisam da verdade, eles precisam de esperança”, para dar enterro nobre a um vilão que representa Hitler, Nixon- aquele que se acha acima das leis e por isso pode fazer o que bem quiser. Watchmen questiona o papel do herói na sociedade, visual e contextualmente preciso, como se admirássemos uma flor, pudéssemos respirá-la, respirar seu néctar, ver as abelhas trabalharem, vê- la murchar e cair por terra, outra flor nascer, e assim o mundo também, girando, em constante destruição e renascimento, com suas belezas naturais que dão luz e destroem, com suas cicatrizes, sorrisos e abismos.

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