domingo, 4 de outubro de 2009

dhalia deixa o orgulho do cinema nacional à deriva



O novo longa-metragem do cineasta brasileiro Heitor Dhalia é o terceiro trabalho de sua carreira, que apesar de estar começando a andar (em termos de filmes lançados no cinema), já é bastante polêmica: suas duas primeiras obras, Nina e O Cheiro do Ralo, são bastante introspectivas (para não dizer obscuras) e mergulham sem medo no interior de seus personagens, às vezes utilizando de metáforas que chegam a causar um certo incômodo no espectador.

À Deriva, lançado esse ano nos cinemas (31 de julho), traz consigo algumas das marcantes características do cineasta, já que conta a história (aparentemente simples) de uma adolescente, Felipa (Laura Neiva) e suas descobertas pessoais durante as férias de verão. Ao longo do filme, a garota se depara com a possível separação dos pais e percebe que a história de sua família não é na verdade, tão colorida como costumava ser em verões passados. E é aí que ele vai trabalhar: os tormentos dos pais, as brigas, o amor, o ódio. Tudo isso sem ferir. Desta vez, Dhalia soube dissolver toda a carga de conflitos psicológicos e tudo é apresentado com uma leveza até então desconhecida. Um filme “de família” que pode ser exibido para o grande público. Ou seja, quem quiser que leia nas entrelinhas.

A atuação intensa de Debora Bloch é de assustar. (Pausa para pensar na ausência de bons atores dessa geração). O figurino criado por Alexandre Herchcovitch nos faz viajar para o final da década de 70 (época em que se passa a história) sem esforço algum.

Outro aspecto notável é fotografia de Ricardo Della Rosa. As belas imagens nostálgicas possuem um ar natural/espontâneo que deixam as influências do cinema europeu (contemporâneo, mas em especial nos fazem lembrar da nouvelle vague) transparecer de forma, acredito eu, proposital. E foi aí que encontrei um ponto interessante a ser discutido: o filme é gravado no Rio de Janeiro (Búzios), mas em momento algum senti que aquele filme tinha alguma característica nacional, isto é, dentro do cinema. Apesar de precário, o cinema nacional apresenta um certo “orgulho” em seus filmes, exibindo sempre a realidade cruel do país, como pobreza, tráfico de drogas, violência. Parece que não pode haver poesia, leveza, e se há, certamente é criticado. Seria pura ficção, fantasioso. Dhalia abandona todo esse “patriotismo”, e, ao invés de tentar fazer um filme original/inovador, ele decide fazer um filme bonito e ponto. A trilha sonora de Antônio Pinto é outro fator que indica suas influencias internacionais (lembrei de Philip Glass e Yann Tiersen). É simplesmente uma cópia bem feita, uma junção de tudo o que ele gosta. E deu certo.

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