segunda-feira, 28 de setembro de 2009

bresson e a fotografia do agora



Na tarde ensolarada deste sábado fui até o Sesc Pinheiros conferir a exposição de um dos fotógrafos mais influentes do século XX, o francês Henri Cartier-Bresson (1908-2004). Uma seleção de 133 fotografias expostas resumem a obra deste artista que, segundo ele mesmo, não gostava de nostalgia e a enxergava como algo negativo. Nunca imaginei ouvir isso de um fotógrafo, mas quando se contempla a vivacidade de suas imagens, fica fácil compreender.

A história do agora, do acaso, que às vezes, de tão bem enquadradas parecem até que as cenas foram ensaiadas, tamanha sua percepção e domínio do momento. Sombras e contrastes são características de sua obra que não se deixam passar batidas. Ora nos fazem lembrar do neo realismo italiano, ora do surrealismo - movimento que Bresson admirava, e, de acordo com ele, não pelas obras, mas pela percepção do subconsciente, e, diferente de todos os artistas desse gênero, ele conseguiu extrair isso da própria realidade.

A exposição acontece até o dia 20 de dezembro. A entrada é gratuita.

domingo, 20 de setembro de 2009

leite azedo (ou leite derramado)


Aqui vai ser assim: tudo em primeira pessoa. Não sei mais o que é ou não ser imparcial, mas isso também já não importa. E quando resolvi criar mais um blog, dessa vez com meu amigo Wanderley Dias, decidimos fugir dessa palhaçada que vemos por aí todo dia, de críticos que – não sei onde lhe disseram que tem moral para escrever/criticar como fazem, sem acrescentar nada na vida do leitor. Enfim, eu poderia ficar horas aqui divagando sobre isso...
Já que vou falar sobre o último livro que li e que talvez soe como uma crítica, pode parecer que essa introdução pareça contraditória. Mas não. Só vou dizer que penso ao contrário. Ótimos professores me indicaram esta obra, mas não me importa, e sigo agora com minha opinião sobre o novo romance de Chico Buarque, Leite Derramado, publicado este ano pela editora Companhia das Letras:

Relatos de um velho prestes a morrer que dirige as pessoas que o rodeiam no seu quarto do hospital, (filha, enfermeiras, médicos...) as últimas palavras de sua vida. Palavras que se tornam histórias. Mas que, segundo ele, não são histórias de um velho qualquer. Ele, membro de uma tradicional família portuguesa que chegou ao Brasil e construiu seus belos castelos (que a medida que o tempo passa chegam às ruínas).

Não é sempre que alguém se interessa em resgatar nossas raízes, principalmente em nossa literatura, porém de forma superficial, é apenas um romance, que não chega a duzentas páginas, fácil de serem lidas, mas que desagradam a maior parte do tempo. Você torce para o velho morrer logo, pois percebe que aquela chatice que já ouvimos tanto sobre a exaltada vida de ociosidade vinda dos portugueses não acrescentam em nada. O que vale é um nome de família rica, o falso poder. Por mais que se narre a construção de um país, é um ponto de vista muito particular, então de nada vale esse resgate.

Fica fácil compreender porque tanta gente vêm falando desse livro de uma forma tão respeitosa. Sei que a maioria que ler isso não vai concordar, mas resolvi dar cara a tapa. Essa história não vale muita coisa, porém na sociedade pós-moderna que vivemos, de uma geração que vive apenas o presente, qualquer coisa que se diga do passado é sinônimo de repertório, de profundidade.

Quanto à sua construção, uma narrativa em que ele repete várias vezes o mesmo fato, acrescentando ou contando de forma diferente soa interessante, já que se trata de um velho que passa a ter devaneios, achei adequado. Mas como já disse, a linguagem é simples, qualquer pessoa entende, como qualquer pessoa poderia escrever dessa forma, não é nada tão inovador como eu ando ouvindo por aí...

Acredito que os velhinhos são as pessoas que mais nos ensinam. Me desculpem todos vocês, mas esse vai tarde...

sábado, 19 de setembro de 2009

dança eterna

Gostaria de deixar aqui minhas sinceras condolências para a família Swayze, pela perda do pródigo Patrick, e a todos os seus fãs. Fãs dele, que merece muitas rosas no caixão, ele que foi Toni Manero sem maneirices em Dirty Dancing (1987), precedeu a mão na cintura de Jackie em Rose na famosa cena de amor do vaso de barro, em seu ápice, Ghost (1990). Ele, que nos deixou na última segunda-feira, aos 57 anos, após cair diante o embate contra um câncer no pâncreas, após muitas vitórias, já que os médicos deram 1% de chances de sobrevivência por mais 5 anos, e ele multiplicou por 100 tal porcentagem.

Mas na vida, como sabemos, ninguém vence o embate contra a imbatível senhora da foice letal- A Morte! Nem Harry Potter, nem Jesus. Lembranças para você, charmoso Patrick (homem de verdade, como ouvi uma velhinha dizer outro dia numa pastelaria enquanto passava Dirty Dancing ). Finalmente aí, "do outro lado da vida", quem sabe? Lembranças do coelho Frank do Lado B Donie Dako (1998), onde atuou com um iniciante Jake Gyllenhaal, e todos seus queridos e marcantes personagens, eternizados na memória coletiva, que não deixa ninguém partir, na arte que vence a morte. Essa é oferecida para você Patrick: - DJ, tem "(I' ve Had) The Time of My Life"? Então mexamos o quadril e mergulho na nostalgia; som na pista!!

num mundo que não criei (criaram)

Estava eu numa adega esses dias, quando no meio de um papo furado, indaguei umas garotinhas com pose de Rebelde (novela do SBT) se gostavam de Dance of Days, só pra ver até onde ia a patuscada (Collor, obrigado por me ensinar essa palavra).
Uma disse: -Ai, eu gostava, mas agora to ouvindo Guns. Não curto mais; as letras são chatas e o Nenê fala sobre muita coisa diferente, além do pessoal que não tem um visual bonito.
A outra: -É.

Gosto de Guns, não gosto de Dance of Days?!?!!?!?! Tudo bem, gosto é gosto, mas tirando pelo que veio antes e o posterior daquela converssa (sendo juiz da obviedade) elas malemá tinham mentalidade para entender o amor boçal do NX Zer0000000000; e queriam pagar de que compreendiam as palavras do Nenê Altro?!?. Amigos, não sejamos escrotos e hipocritas, o cara escreve bem pra cacete! Tem uma profundidade que aquelas menininhas, que deviam ter acabado de virar mocinhas, soprando um cigarro de cravo e "bebendo" num copo de puro colarinho, já que sequer o viravam para enchê- lo, não sacavam nem fodendo. Criticando a estética visual, o diferente (heloooow, "Blank Generation"), criticando o diferente depois de dizer, "ai, ninguém me entende em casa, sou a ovelha negra". Então saia e vá consumir, compre as contraditórias calças jeans rasgadas. Talvez daqui uns anos, pois exige a bagagem mínima de alguém que já viveu poucas e boas.

E fico fodido, sim (não literalmente), com essa pose falsa para impressionar os radicais (limitados) que só abraçam o estereótipo; valores de uma liverdade celada, vendida. Obrigatória? Espero que notem a tempo antes da frustração iminente da máscara de uma vida, queridas meninas perdidas (como eu, como você).

sábado, 12 de setembro de 2009

heróis que sangram


Watchmen tinha tudo para se tornar (se não a) uma das melhores adaptações dos quadrinhos para o cinema. E assim Zack Snyder (300) o fez, transpondo de forma primorosa o universo deixado por Alan Moore e Dave Gibbons, de acordo com a estética cinematográfica. Um filme riquíssimo, repleto de simbolismo e referência pop, tanto nas imagens – repare em alusões ao clássico Apocalypse Now; “O Beijo”, fotografia de Robert Doisneau; e até mesmo A Santa Ceia de Leonardo Da Vinci- quanto nos diálogos e personagens. E a coreografia nas lutas? Puro quadrinho, com movimentos longos e golpes impactantes.
O figurino é outra sacada genial, estilizado de acordo com a época de cada liga de vigilantes, com os primeiros primeira lembrando realmente os filmes antigos de super heróis como o Superman de 1978, o seriado do The Flash de 1990 e o longa do Capitão América do mesmo ano. Já a segunda liga traz uniformes bem mais desenvolvidos, assim como nos filmes atuais do gênero.
Trilha sonora de primeira com Bob Dylan arrepiando no sensacional prelúdio do longa, e engrossando o caldo de uma premissa cheia de grandes expectativas com “The Times They Are A- Changin", Simon & Garfunkel entoando “The Sound of Silence” na despedida do Comediante, Leonard Cohen declamando a belíssima “Hallelujah”, e outros grandes nomes da música.

O filme é longo, são quase 3 horas- o que é necessário para transcrever a graphic novel publicada entre setembro de 1986 e outubro de 1987. Alan Moore criou e Dave Gibbons ilustrou um mundo profundo, numa realidade alternativa em que Richard Nixon teria permanecido no poder após levar os EUA à vitória na Guerra do Vietnã, e heróis mascarados são uma presença real na história da sociedade, vivendo meio à Guerra Fria, com o país prestes a declarar uma guerra nuclear contra a União Soviética. Complexo e profundo, assim como o próprio ser humano, Watchmen vai além da idéia maniqueísta do herói bonzinho que luta contra o vilão malvado.
Aqui, a história decorre além do bem e do mal; com filosofia, ética, moral, história, cultura popular e de massas. Em uma Nova York futurista-retrô, a idéia de super herói é questionada, o ser perfeito deixa de existir, e essa desmistificação o torna o possível “aventureiro mascarado”, ou “vigilante mascarado”, como os próprios se intitulam, com suas atitudes hora pensadas/hora impulsivas e seus conflitos internos,psicológicos, cheios de neurose e confusão.

O longa é um prato cheio para quem gosta de pensar e tem um pouco de senso crítico. O longa é para quem gosta de efeitos visuais, mas não só de efeitos visuais sem relevância; ação e reação banais, soltas, vazias. Para quem não agüenta mais heróis que levantam bandeiras como um aracnídeo que abraça, quase copula de prazer com a bandeira dos EUA. Ou pior ainda, tamanha a distorção do original com um morcego que diz “Eles não precisam da verdade, eles precisam de esperança”, para dar enterro nobre a um vilão que representa Hitler, Nixon- aquele que se acha acima das leis e por isso pode fazer o que bem quiser. Watchmen questiona o papel do herói na sociedade, visual e contextualmente preciso, como se admirássemos uma flor, pudéssemos respirá-la, respirar seu néctar, ver as abelhas trabalharem, vê- la murchar e cair por terra, outra flor nascer, e assim o mundo também, girando, em constante destruição e renascimento, com suas belezas naturais que dão luz e destroem, com suas cicatrizes, sorrisos e abismos.