domingo, 18 de outubro de 2009

ode à uma geração bastarda



Por assistir a obras tão incríveis do passado eu tenho o costume de desprezar a minha geração, essa que copia e cola tudo por não ter mais o que inventar e se intitula pós-moderna. Soa muito triste acreditar nesta ideia de que nada de inusitado pode surgir, de que carregamos esse fardo de décadas de ouro nas nossas costas e não podermos seguir adiante com a nossa sem dependermos do passado.

E por momentos especiais como o que tive ontem, digo que não precisamos deixar de acreditar nessa geração que parece perdida. Assisti ao novo filme de Quentin Tarantino, Bastardos Inglórios (Inglorious Bastards) que pelo menos pra mim, é um dos maiores representantes do cinema pós-moderno.

O filme começa com aquele típico diálogo longo que nos deixa com os olhos fixados na tela na expectativa do inesperado desfecho. Dessa vez quem é satirizado por Tarantino é o movimento nazista, Alemanha, década de 40. Ao longo da história se trava um conflito entre os fiéis súditos de Hitler e um grupo até então anônimo de judeus que lutam contra os nazistas, os Bastardos Inglórios.

Tudo é tratado com muito sarcasmo, o me fez lembrar da polêmica comédia Ser ou Não Ser (To Be or Not to Be, 1942) do alemão Ernst Lubitsch, a maior sátira ao nazismo filmada em plena ascensão de Hitler. Mas as influências cinematográficas vão longe, desde filmes western a clássicos italianos, Sergio Leone em especial, não apenas em cenas carregadas de informações, como também a trilha sonora, desde alusões a filmes de bang-bang até a clássica Cat People (Putting Out Fire) de David Bowie.

Saindo um pouco deste ângulo geral, gostaria também de fazer uma observação sobre a atuação de Brad Pitt, que interpreta o tenente Aldo Raine, líder dos Bastardos. Ele mergulhou de cabeça para interpretar um personagem cômico, assim como fez no último longa dos irmãos Cohen, Queime depois de ler (2008). Ele tem conseguido se superar com esses personagens que felizmente são o oposto do que ele costumava fazer. Ganhou meu respeito.

153 minutos muito bem aproveitados de muita ação, violência e diálogos incríveis despertaram em mim aquela sensação que temia nunca mais ser desperta em mim, aquela que você fica vidrado, inquieto na poltrona do cinema, esperando quase que roendo as unhas para ver o que vai acontecer. Talvez o efeito ainda não tenha passado, assisti o filme ontem a noite, talvez quando eu assistir de novo não vai ser a mesma coisa, mas. Eu pude sair do cinema com um certo orgulho de fazer parte desta geração bastarda.

sábado, 10 de outubro de 2009

listas

Na semana passada, o site Pitchfork soltou uma lista dos 200 melhores álbuns da década (antes da mesma acabar), em que argumentou muito bem os motivos que levaram cada um a sua respeciva colocação. Tudo bem, mas daí reflito; " não é muita prepotência querer apontar quem é melhor que quem? Qual a relevância de uma lista dessas quando cada ser humano é um mundo completamente particular?" Cada um com seus gostos e tal... com bons fundamentos elegeram do ponto de vista de um reflexo generalizado da sociedade quem melhor definiu estes tempos globalizados- no caso Radiohead e seu Kid A (2.000)- em que vivemos, mas ainda assim existem muitas partes a serem analisadas, e a parte pessoal de cada um? A falha herdada da falida Teoria Funcionalista; a massa que apaga o sujeito.

No fundo, no fundo as listas são uma tentativa de enquadrar modelos. Controle. Aliadas inevitavelmente ao gosto pessoal de críticos e sua experiência de mundo; apenas SEU olhar sobre o mesmo. As listas ajudam a eleger representantes de uma geração, e a deixa sem rosto. Um Oscar que elege o melhor ator quando os concorrentes representaram papéis diferentes! Um VMB que "dá" a falsa liberdade de escolha. Pura contradição, quando podemos votar apenas em artistas escolhidos previamente. Esquema mercadológico isso sim.

Eu faço a crítica, mas confesso que sempre gostei de listas, e também que começo a querer me impor; um controle comunicativo não mais só no inconsciente, pois hoje em dia elaboro minhas próprias listas.

1° ? 2° ? 3° ?...

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

faroeste coreano


No passado o diretor japonês Akira Kurosawa teve longas servindo de referência para a reinvenção do western; dentre eles Yojimbo- O Guarda- Costas (1961), pelas mãos de Sergio Leone em Por um Punhado de Dólares, com Clint Eastwood. Muitos anos depois a história é invertida, e chega Os Invencíveis, do premiado diretor coreano Ji- woon Kim. Uma refilmagem bem particular do clássico Três Homens em Conflito (1966), do mesmo Leone, com trilha de Enio Morricone, Clint Eastwood, Lee Van Cleef e Rada Rassimov no pega pra capar.
Ji- woon Kim pegou a película de 1966, bateu num Juicer fodão daqueles da Polishop, e devolveu este inusitado e original faroeste coreano. Só assistindo o longa mesmo pra entender como um remake pode ser original...
São mais de 2 horas de adrenalina, hipnotizado por muita ação, o inevitável humor coreano, e muita criatividade no enredo vivido por verdadeiras figuras, através de uma câmera vertiginosa e ângulos inusitados. Fora o estilo único nas cores, no visual do filme, que mesmo quando reconstrói algumas cenas do original, mantém algo autoral, uma personalidade própria.
Os três homens; o bom- um caçador de recompensas (Woo- sung Jung), o mal- um matador de aluguel (Byung- hun Lee) e o estranho- um tipo.... estranho (o impagável Kang- ho Sond, de O Hospedeiro), duelam na Manchúria dos anos 30 pela posse de um mapa do tesouro, ainda com o exército nipônico e coreano, e alguns russos!
São cenas incríveis de ação, como a do Mercado Negro e a da batalha no deserto; praticamente um épico, ao som de "Don't Let Me Be, Misunderstood" do Santa Esmeralda. A violência e o humor caminham juntos em cenas sensacionais como a da "faca cega" e a do "zigue- zague" do estranho para desviar das balas no Mercado Negro.
No fim uma surpresa mantém o sorriso de satisfação ainda mais largo, pra ir dormir leve e grato, por ter assistido um filme memorável, desses que dão gosto pela ousadia contra o engessamento que poucos tem coragem de trazer à luz.

domingo, 4 de outubro de 2009

dhalia deixa o orgulho do cinema nacional à deriva



O novo longa-metragem do cineasta brasileiro Heitor Dhalia é o terceiro trabalho de sua carreira, que apesar de estar começando a andar (em termos de filmes lançados no cinema), já é bastante polêmica: suas duas primeiras obras, Nina e O Cheiro do Ralo, são bastante introspectivas (para não dizer obscuras) e mergulham sem medo no interior de seus personagens, às vezes utilizando de metáforas que chegam a causar um certo incômodo no espectador.

À Deriva, lançado esse ano nos cinemas (31 de julho), traz consigo algumas das marcantes características do cineasta, já que conta a história (aparentemente simples) de uma adolescente, Felipa (Laura Neiva) e suas descobertas pessoais durante as férias de verão. Ao longo do filme, a garota se depara com a possível separação dos pais e percebe que a história de sua família não é na verdade, tão colorida como costumava ser em verões passados. E é aí que ele vai trabalhar: os tormentos dos pais, as brigas, o amor, o ódio. Tudo isso sem ferir. Desta vez, Dhalia soube dissolver toda a carga de conflitos psicológicos e tudo é apresentado com uma leveza até então desconhecida. Um filme “de família” que pode ser exibido para o grande público. Ou seja, quem quiser que leia nas entrelinhas.

A atuação intensa de Debora Bloch é de assustar. (Pausa para pensar na ausência de bons atores dessa geração). O figurino criado por Alexandre Herchcovitch nos faz viajar para o final da década de 70 (época em que se passa a história) sem esforço algum.

Outro aspecto notável é fotografia de Ricardo Della Rosa. As belas imagens nostálgicas possuem um ar natural/espontâneo que deixam as influências do cinema europeu (contemporâneo, mas em especial nos fazem lembrar da nouvelle vague) transparecer de forma, acredito eu, proposital. E foi aí que encontrei um ponto interessante a ser discutido: o filme é gravado no Rio de Janeiro (Búzios), mas em momento algum senti que aquele filme tinha alguma característica nacional, isto é, dentro do cinema. Apesar de precário, o cinema nacional apresenta um certo “orgulho” em seus filmes, exibindo sempre a realidade cruel do país, como pobreza, tráfico de drogas, violência. Parece que não pode haver poesia, leveza, e se há, certamente é criticado. Seria pura ficção, fantasioso. Dhalia abandona todo esse “patriotismo”, e, ao invés de tentar fazer um filme original/inovador, ele decide fazer um filme bonito e ponto. A trilha sonora de Antônio Pinto é outro fator que indica suas influencias internacionais (lembrei de Philip Glass e Yann Tiersen). É simplesmente uma cópia bem feita, uma junção de tudo o que ele gosta. E deu certo.

sábado, 3 de outubro de 2009

afinal de contas, onde está a crítica?


Existe por traz do próprio filme uma crítica em cima das críticas que viriam a seguir? Será que Lars Von Trier, com este filme está dialogando com Duchamp sobre as pessoas que dão mais atenção pelo seu status adquirido anteriormente do que pela obra do presente em si? Será que "O Anticristo" não é a privada de Lars Von Trier ou eu estou viajando? Ou é preciso viajar para realmente ter uma leitura menos plastificada das obras? Serão vácuos de um homem de respeito (fez pra relaxar, pra disfarçar a falta de criatividade ou pra tentar enganar?)

Sinopse: casal tenta superar trauma da perda de seu filho numa viagem ao meio do mato.
O Anticristo é o novo filme do polêmico Lars Von Trier, um dos fundadores do Dogma 95 com Thomas Vinterberg- movimento com objetivo de realizar um cinema mais realista e menos comercial (como o modelo de Hollywood). Já com o fardo de grandes obras anteriores do cineasta, como Dogville, Dançando no Escuro e Manderlay, este longa chegou na mostra competitiva de Cannes deste ano sob a mira dos críticos sedentos por sangue nobre, e ao fim da sessão foi chupado até o osso sob chuva de vaias, mas acima de tudo, causando.

O problema em discutir um grande cineasta, muitas vezes é olhar tão fundo, procurar tanto, e acabar encontrando (como canta Ian Gillan) fumaça em baixo d'água. -O que você encontrou então espertinho? -O que eu encontrei seu nerd de merda? Eu encontrei Lars rindo da sua cara, ao passear na floresta com seu capuz vermelho sangue, cheio de ironia consigo mesmo e seu vazio criativo, ao falar de uma maníaca sexual que parece ter dupla personalidade (Charlotte Gainsbourg) que passa quase o filme todo com um psiquiátra- entidade; sem fraquezas humanas (Willem Dafoe) numa floresta brincando de médico e passeando por traumas da perda do filho e massacre da mulher durante a história da humanidade,- mais especificamente a caça às bruxas. Toda essa mistureba com muita monotomia e horror gore, mais para confundir do que para explicar; aquela falta de clareza apreciada pelos "cults".

Destaque para a abertura do longa, com uma cena deslumbrante- mais ironia do velho Lars ao dizer "posso soar bonitinho" justamente na tragédia que dá mote aos capítulos entediantes que seguem. Destaque também na atuação perfeita do casal Gainsbourg-Dafoe, perfeitos ao que se propõem nesta especie de cruza da Bruxa de Blair com ShortBus no Set (cinza) de A Dama na Água.

Lynch funciona porque é um sem noção declarado, mas assim, querendo ser levado a sério (talvez não), numa história que deixa constrangimento em imagens desnecessárias e incômodo- não pela crítica mas pelo preço do ingresso-, não rola.