segunda-feira, 23 de novembro de 2009

encontros com woody allen - parte 1


Woody Allen por Steve Schapiro
Não aguentava mais reclamar. Estava tudo muito parado. A Mostra Internacional de Cinema não foi boa pra mim, já que não comprei antecipadamente meus ingressos. O que me restou foram os filmes em cartaz. Não achei justo. Queria algo mais digno do que encerrar este ano assistindo Lua Nova e ficar a deus dará na espera de boas estreias. Foi então que ganhei meu presente de Natal antecipado:

Dia 18 de novembro começou a mostra A Elegância de Woody Allen no CCBB de São Paulo (Rua Álvares Penteado, 112). Os paulistanos têm a oportunidade de ver e rever a obra completa (ao todo são 40 filmes, além de cursos e debates) do cineasta até o dia 13 de dezembro. E um dos motivos para eu não ter comentado esse evento aqui antes é que, felizmente eu estava por lá, no centro velho de São Paulo, no charmoso prédio do CCBB, correndo atrás dos ingressos, que, estão à venda somente no dia da exibição do filme em cartaz.

Comecei minha maratona assistindo Alice, ou Simplesmente Alice (1990), protagonizado por Mia Farrow. Woody Allen dedicou este papel especialmente a ela, que, convenhamos sempre fez jus aos memoráveis personagens que Allen a concedeu. Aliás, lembrei de Mia Farrow e o longa The Purple Rose Of Cairo (A Rosa Púrpura do Cairo, 1985) durante toda a semana, pois meus encontros com um dos meus cineastas favoritos estavam se repetindo, não sabia quando passaria dos limites, fazendo com que Woody Allen saísse da tela e mandasse-me fazer algo da vida. Passei pelas ácidas sátiras de seu primeiro pastelão (na minha opinião) Bananas (1971), assisti ao coloridíssimo Sweet and Lowdown (Poucas e Boas, 1999), filme que marca a fotografia de Fei Zhao (por isso as notáveis cores que desconhecíamos de obras anteriores) e a cômica atuação de Sean Penn, que interpreta Emmet Ray, um guitarrista de jazz. Depois de perder algumas sessões, fechei a semana no sábado à noite com o musical Everyone Says I Love You (1996). Nunca havia assistido e não estava muito confiante de que iria gostar (não acreditava que Woody Allen conseguiria fazer um musical característico a sua obra), mas me enganei. Não entraria na minha lista de favoritos, devo confessar, mas esse filme não é pedante em momento algum. Uma história de família, amores e desamores com uma acidez bastante dissolvida. E outra. Seria impossível falar mal desse longa (de uma fase bastante conturbada do cineasta) quando ele acaba numa festa de Natal onde Groucho Marx é o tema principal e todos usam bigodes.
PS: Woody, nos encontramos na quarta-feira e, prometo que essa semana não vou chegar atrasada para nenhum de seus espetáculos.

Continua...

pra quem gosta (ou não) de futebol

Estádio por Andréia Regeni
Sábado nublado e lá vou eu fazer uma matéria (contra minha vontade) sobre o Museu do Futebol, alí, embaixo do Estádio do Pacaembu, na Praça Charles Miller. Com aquela preguiça cheguei lá com a câmera e não, não pude fotografar. “Temos que preservar nosso acervo”. Matéria sem foto? Eu quase dei meia volta para ir embora, mas não desisti. Entrei. Aquele era o último dia em que estava acontecendo uma exposição de camisas de times. Aquilo me impressionou, cada camisa tinha uma história diferente, e o mais interessante de tudo era ver aquelas camisas representando apenas o seu time, não logos de grandes marcas patrocinadoras. A minha viagem no tempo começara ali. Ao lado, uma parede repleta de botões, aqueles de futebol de botão mesmo. Lembrei de filmes, de histórias, daquelas que meu pai contava de quando era garoto...
Subindo para o segundo piso, pude ver também capas de revistas, jornais e outros periódicos de várias épocas. Visitei a sala da torcida, onde são projetadas telas com imagens de torcedores que amam seu time. Na Sala das Origens, vi centenas de fotografias que contam a história do futebol no Brasil desde 1927, englobando também fatos políticos e culturais de diversas épocas. Com legendas curtíssimas nas laterais das fotos, não pude saber quais eram os nomes dos autores daquelas obras que mais me chamaram a atenção no museu. Aliás, achei que faltou um pouco de informação textual em todos os ambientes do local. Mas a viagem ao túnel do tempo valeu a pena. Uma viagem à era do rádio homenageia os principais locutores que narravam os jogos pelo rádio, que até hoje possui seus fiéis ouvintes. No Rito da Passagem, você confere, além de imagens e vídeos de todas as Copas do Mundo em que o Brasil participou (desde 1930), fatos que marcaram a história do nosso país e do mundo, como a Bossa Nova, o governo de Getúlio Vargas, a queda do Muro de Berlim, e também me deparei com minha época: Mamonas Assassinas, Spice Girls, o Plano Real, Bichinho Virtual, a posse de Lula...
Com meu tempo se esgotando (já que o museu fechou mais cedo no sábado devido ao jogo do Corinthians), joguei uma partida de pebolim, dei uma olhadinha na vista para as arquibancadas do estádio (do qual nunca tinha visitado) e fui embora. Não vou dizer que a partir disso me envolvi com o esporte, mas com certeza passei a respeitar mais a memória do meu país, que é e sempre foi apaixonado pelo futebol.

Informações de serviço do museu em: http://www.museudofutebol.org.br/

Créditos das imagens: Andréia Regeni

domingo, 22 de novembro de 2009

para oskar, meu maldito!


Permita que eu entre, compartilhe e sufoque nossa solidão. Eu que vivo neste corpo congelado, aprisionada eternamente nas confusões de meu tempo parado no tempo.

Tão real quanto o que você vê sou eu, sua, e por isso, agora mais leve a angustia de viver.

E será assim, nós dois, num contorno menos gélido e de mais ternura, na valsa de poucas mas confortantes palavras; declaradas e sinceras.

Me abraça com amor, porque realmente me abraça, e não a uma imagem errônea e distante, que apenas afasta e machuca.

Então fui convidada; reconhecida e salva. Então disse "obrigada", e o ouro reluziu seu brilho aos meus olhos. Voltei, me deitei, e em você encontrei meu refúgio.


*Palavras inpiradas na bela película Deixa Ela Entrar (Låt Den Rätte Komma In/ Let the Right One in, 2008).

um trago de demônios




Tenho uma porrada de coisas pra fazer. Não faço nada. Enrolo no tempo que não tenho, se é que existe mesmo essa de tempo. Dias vão e vêm, e no relógio mais um irmão gêmeo, no reencontro diário dos seus ponteiros. Preciso de uma reanimada. Esse ano que chega ao fim foi de auto- sabotagem; fiz tudo e não fiz nada. Preciso voltar ao fundo, transar com o mundo. Mais um semestre terminando, e eu enrolando..

Mais um dia, calor infernal! Mais ponteiros, calor infernal! Na livraria da rodoviária do Tietê bato o olho num nome. Lourenço Mutarelli. Memória, memória, memória... Cheiro do Ralo. Nem li o livro, mas putaqueopariu! Curti pra cacete o filme dirigido por Heitor Dhalia. Meus últimos papéis coloridos se vão. Valeu a pena. Ia gastar em breja mesmo. Os camaradas fazem a vez neste fim de semana.

Abro o livro, acabou. Foi num trago só. Eu num mergulho que fazia falta, entre o café e o calor infernal.

Esse foi realmente um achado. Narrativa seca, dinâmica e visual. É quase um roteiro a forma de escrita. Com passagens de tempo e espaço sem enrolação. E nem precisa, tamanho o domínio do cara, a compreenção é natural. Muita ironia, ilustrações que fazem pensar, acidez, humor negro, um cruzado direto nas idéias. Mutarelli solta o verbo e nos apresenta aos demômios de Miguel, o protagonista, neste "... antiromance policial, em que tenta mas não consegue investigar seus desejos, sendo arrastado inexoravelmente a uma trama que envolve pedofilia, possessão, seitas bizarras e múmias mexicanas". Como entrega perfeitamente o prefácio.

O livro acabou
Calor infernal!
Música, cinema, livraria.
Investigo em busca de um novo mergulho pra não queimar na explícita rotina.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

aprendendo a voar com the boy least likely to



Aqui sempre foi assim e a regra não vai mudar. Nada de Golias tentando destruir nosso pequeno mundo. Estamos crescendo e perdemos o medo de altura. Perdemos o medo de voar. Não faz muito tempo que aprendemos a voar e isso tem sido ótimo. Deixamos de ser pequenas criaturas. Agora somos balões coloridos e alcançamos as nuvens que, para quem ainda tem dúvida, são realmente feitas de algodão. Não sei se te contei, mas o xilofone está com as crianças menores e as minhocas. Ganhamos um violão e pulamos corda. Corda de violão. Mas não deixamos a melodia escapar. Devo contar também que existe uma garota...mas o amor ainda me assusta, acho que a todos nós aqui, mas isso não importa. Ainda somos meninos que desenhamos bigodes de caneta no rosto e sonhamos apenas com um final feliz, um final de contos de fadas.

Sobre o disco the law of the playground, segundo disco da dupla, lançado este ano.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

9 - mais uma salvação



9- A Salvação tem direção de Shane Acker, produção (e forte influência) de Tim Burton, além de estrelas como Jennifer Connely, Christopher Plummer e Elijah Wood nas dublagens.
A história começa sem muita enrolação, e nem precisa, pois é uma prévia de algo já visto em obras anteriores como Matrix(1998); Humano VS Máquina. Sob um céu violeta desperta 9, um boneco estranho que logo encontra seus pares; todos feitos a partir de remendos dos restos da humanidade. O grupo é formado por um líder repressor, um sábio, um medroso, gêmeos que catalogam e estudam o passado, um carrasco ignorante, uma guerreira, e um desenhista médium, além do personagem central, cada qual reconhecido por sua numeração. A trama se passa num sombrio mundo pós- apocalíptico, em que apenas os bonecos e uma máquina, da qual se escondem, restaram. Todos vivem sob a alcunha do medo, sem nem sequer conhecer suas origens, até que 9 desperta. Ele será o questionador, aquele que chega para desvendar as terras além- carverna, como na clássica narrativa de Sócrates.
Esta pesada (no bom sentido) animação remete em alguns monentos a algumas obras clássicas, como o Mágico de OZ (1939), num dos poucos momentos de tranquilidde dos personagens em que se divertem ao som de "Over the Raibow" interpretada por Judy Garland, em um lugar que lembra em muito o cenário P&B do longa que apresentou Dorothy e cia, aliás, primeiro aparentemente destinado ao público infantil, mas que trazia simbolicamente claras referências ao clima do pré- guerra, puxando sardinha, claro, para a terra do Tio Sam.
9 é uma animação desafiadora e de uma criatividade espantosa na criação visual, mais uma animação digna de reverências, ao lado de grandes recentes como Wall - E (2008) e Coraline (2009) do próprio Tim Burton, padrinho dessa produção. Ao fim deste conto sombrio, nos pensamentos a reflexão- de que cada um de nós, além de fazer parte de um todo, somos o próprio todo, o medo e a coragem; a inteligência e a ignorância; a repressão e a liberdade. Mundos distintos que buscam equilíbrio; se vencer para crescer.

uma trilha para kubrick




Quinto álbum de estúdio da banda britânica Muse, com vocês The Resistance:

 I
"O homem respira fundo, depois começa a caminhar na rampa rumo ao globo multicolorido, rumo a um mundo consfuso. Caminha na linha da paranóia, que hora se esquiva, hora tenta combater um inimigo poderoso, invencível, pesooal, de existência tal qual uma fênix, que renasce em cada fragmento de si mesmo. Um inimigo que bombardeia imagens e informações na velocidade da luz. Indissociável, que precisa ser combatido, mas não pode ser derrotado, pois são duas faces dependentes, de uma só moeda de carne."

II
"O homem se veste, se pinta e carrega suas armas. Vai ao campo de batalha, se fere, se levanta, escreve uma carta e guarda no esquecimento de um coração empoeirado pelo mundo de papel. O homem chora e sorri, tentando encontrar resquícios de uma humanidade falida, cheia de pílulas, tarjas e contatos sem rosto. Perseguido pela sombra, tenta a alma aquecer; um grito sufocado quando próximo da natureza de metal."

III
"O homem dos gritos surdos está em reverência eterna, curvado, frente a caixa de Pandora, extensão do corpo sem lógica. Sua alma aprisionada por uma tal polícia dos karmas, que faz plástico do corpo e do espírito"

FIM

Em seu quinto álbum, o Muse entoa um épico sobre uma guerra pessoal, conspiratória, que tenta traduzir estes tempos de paranóia e uma certa liberdade obrigatória imposta pela ditadura branca. Por todo álbum ecos temáticos de homens que atearam palavras nas cortinas do controle social, como Huxley e Orwell, através de música clássica, sirenes e rock combatente de arena, num caldeirão cyberpunk que remete até mesmo a Queen em alguns momentos. Bellamy e Cia compuseram uma bela trilha para Kubrick converter em imagens, em algum lugar, numa realidade alternativa.
O Muse nada no oceano da vida, tentando explorar novas ilhas, tentando encontrar os homens, e melhor não voltar, pois nas praias seguras, em terra firme, morremos de tanto "viver".