quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

os dez melhores discos de 2010



Listar é uma mania que tenho e, durante o ano inteiro penso nos discos que vão entrar para esse top 10 final. Esse ano foi um pouco diferente. Aqui no blog, postamos mais textos de shows que fomos e não tivemos tempo para os lançamentos de discos, então, o que resta é resumir um ano inteiro de muita música nessa lista. Aqui ela não se forma por ordem de preferência, apenas o primeiro lugar, que vai merecidamente para Joanna Newsom e o seu lindo terceiro disco Have One on Me. Vamos lá:


1. Joanna Newsom - Have One on Me
2. CocoRosie - Grey Oceans
3. Best Coast - Crazy for you
4. Blonde Redhead - Penny Sparkle
5. Beach House - Teen Dream
6. Arcade Fire - Suburbs
7. Four Tet -There is love in you
8. Belle and Sebastian - Write About Love
9. of Montreal - False Priest
10. Caribou - Swim

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

antes do sol se pôr,



se pôr dentro de mim e eu espero que não se ponha nunca. Faz quase um mês e eu ainda lembro perfeitamente. A tarde do dia 20 de novembro era de sol. Mas muito sol mesmo. Que isso fique bem claro...

O festival Planeta Terra tornou-se para mim e para alguns amigos um dos dias mais aguardados do ano. A volta do Pavement e seu primeiro show no Brasil!
Mas não é sobre eles esse texto. Eu estava muito ansiosa para assistir ao show do of Montreal, que, também faria uma apresentação inedita aqui. Mas como o Pavement também estaria, ficou em segundo, terceiro, quarto plano...quer dizer, não que eles fossem tocar no mesmo horário, mas a banda que ficou por mais tempo circulando dentro dos nossos ouvidos (ou dos meus ouvidos) foi o Pavement. Enfim.

Dez minutos antes do of Montreal subir ao palco eu estava desesperada, pois não conseguia me mover e sair daquela multidão de fãs (do Mika, mas que chegaram cedo demais) para comprar um copo d’água, estava morrendo de calor e quase deixando o mau humor tomar conta de mim.

Mas aí uma carpa gigante armada de duas metralhadoras subiu ao palco. E ela atirou e a bala foi direto na minha cabeça. A primeira bala da sequencia desse tiroteio foi Black Lion Massacre e eu me acalmei. Quer dizer. Eu saí do meio daquela multidão e fui para o palco. Pelo menos foi o que eu senti. Então Kevin Barnes apareceu e eu pulei o mais alto possível e ficamos cara a cara e cantamos Coquette Coquette e então ela passou a ter outro sentido.

Ainda nas alturas dancei com a banda toda ao som de Suffer for Fashion e tivemos uma festa particular ao som de The Party's Crashing Us. Nesse momento eu matei minha sede e nem sequer sentia o calor daquele asfalto em que meus pés estavam plantados antes do show. Eu estava bem longe.

A sequencia de tiros de endorfina ou do que quer se seja que aquelas balas de música possuem seguiram com Our Riotous Defects, Like a Tourist, Wraith Pinned to the Mist (and Other Games) e eu sinceramente não me lembro em que música isso aconteceu, mas pude compartilhar minha alegria com um dos dançarinos quadriculados, que pulou em minha direção e apertou muito forte a minha mão e esse momento durou quase uma eternidade e minha mão mudou de cor.

Como se não bastasse escutar Bunny Ain't No Kind of Rider durante aquele final de tarde, com direito a um notável por do sol com todos os tons imagináveis, admirado também por Kevin Barnes, cantei o hino Gronlandic Edit e esqueci para sempre toda a beleza desperdiçada.

Perto do fim She's a Rejector me trouxe memórias de anos atrás e, se eu não soubesse que o por do sol pintado por alguém exclusivamente para aquele show fosse durar para sempre, ficaria triste com a última bala daquela metralhadora sonora, A Sentence of Sorts in Kongsvinger deixou o palco pequeno com a presença de todos os integrantes do of Montreal e celebrou uma das despedidas mais felizes que eu já pude presenciar. ´


Algumas fotos do festival estão no meu flickr.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

um salvador de carne e osso


Vladimir Herzog, Carlos Mariguella  lutaram e caíram pela ditadura no Brasil. Mas como tudo que é organizado (para o bem ou para o mal) não foi só aqui que rolou luta armada contra a repressão e direito por liberdade de escolhas.

Salvador Puig Antich é um desses heróis que não podemos esquecer, pois nos deixa antenados e de olhos bem abertos para que saibamos qual lado escolher diante dessa desgraça, da qual jamais estaremos distantes, conhecendo bem o homem quando tomado pelo signo da ganância e do poder.

Este longa de 2006, que apesar de ter participado da seleção oficial Un Certain Regard em Cannes nem foi divulgado por aqui, talvez porque seja bom e não tenha "defeitos especiais". Narra a história real do militante, assaltante de bancos e anarquista Salvador Puig Antich (Daniel Brühl - Adeus Lênin, Bastardos Inglórios), integrante do grupo Movimiento Ibérico de Liberación, cuja execução em 1974, a última realizada na Espanha com o método do garrote, instalou uma polêmica que ajudou a decretar o fim da ditadura franquista e o retorno da democracia ao país.

Salvador conta com uma ambientação de primeira, trilha sonora das boas (Jethro Tull, Leonard Cohen...) e tensão marcante na parte final, de comer 11 unhas confesso. É importante também ressaltar a convivência entre Salvador e o guarda que o supervisiona na cadeia, que aos poucos vai se transformando de um profundo ódio cego e ignorante em lágrimas e respeito.

Porém este é daqueles filmes onde mais do que os méritos cinematográficos, valem pela relevância da mensagem que passam. Uma homenagem póstuma a pessoas que precisam permanecer vivas, por verem em tempos sombrios o cenário por completo, terem ido a luta mesmo quando seu "deus" prega a matança e desova da inocência e da justiça.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

sobre décadas e a velha mania de criar manias

Fale com alguém que não tenha vivido na época e goste de artes em geral. Não quero generalizar, apenas passar uma certa ideia da velha mídia de massa, sem querer bater numa velha tecla, mas é tecla forte caro leitor!

Vamos lá! Você não viveu na época; comprou revistas dessas "especiais" que adoram sintetizar 10 anos em 10 páginas, perguntou pro tio gente boa que estava em Marte mas de vez em quando ouvia umas notícias no radar das bocas e das janelas altas...

Daí você começa a pensar na história toda. Tudo bem, tem lá suas diferenças, mesmo porque é "cool" ser diferente e "cult" ser pseudo não é mesmo? Não se ofenda, eu sou apenas o cantor... Traçamos a linha do tempo, vamos por música pop, rock' n' roll! É muitas vezes bom, volta meia popular, e que bom quando não feito pra ser populista.

Um cara da uma rebolada ali, canta um negro acolá, o outro menino dos cabelos cacheados eleva a outro patamar, e os 4 meninos fantásticos viajam com graça, tem até um que mostra o lado selvagem da noite e outro que sangra em cacos e revolta. Depois a galera dá uma acelerada na coisa toda, enquanto outros tentam expandir a viagem....

Bandeiras se levantam, alfinetes são espetados e gritos são bradados. Entra em cena muita cor berrante de ou lado e um céu cinza acima de um tom P&B abaixo, lá em baixo... Novos astros sobem, outros caem, sempre. Uns aguentam a barra, outros não suportam o peso do espírito adolescente. Até as máquinas dialogam, de certa forma há muito tempo, e cada vez melhor no caso de alguns.

Fora tudo isso tem muita coisa, muitas drogas e sexo se preferir, de prache e pelo clichê, mesmo por que às vezes na fuga viramos um. Tem muita coisa e você sempre saca tudo, sem precisar nem mesmo dar nomes as bois. E o problema é exatamente esse. Mil nomes e mais os do porvir aos mesmos bois de sempre...

Agora eu caio aqui, em frente a esse computador, pensando que a década está acabando. E pensando que nem um idiota, quem são os bois da vez?..................... Aposto que no intervalo dessas reticências você pensou e se esforçou para buscar alguns nomes. E que armadilha em amigo, mas o que percebi e feliz por tal percepção, é que são muito mais nomes nessa década, a que descobri muita coisa, e tenho acompanhado de diversas formas o cenário quase que por completo. Não, eu não sou um sociólogo, não sou um grande mestre em história da música dos anos 2.000 mas claro, cresci e pertenço em carne e ossos, mais ossos que carne nos dias nessa época.

E então fico mais feliz ainda por notar que este veículo, vem buscando novas formas de diálogo, algo mais pessoal e diferente do que vemos por aí em geral. Palavras e nomes, olhares menos massificados, sem fechar as portas, sempre deixando brecha para a deliciosa relatividade que é sempre bem vinda.

Sim leitor, o cadela verde não quer salvar o mundo, apenas ser sincero. O cadela verde não quer o amanhã agora, apenas mais personalidade, para que os filhos das próximas décadas encontrem ainda mais pérolas do passado, mas que abrace seu presente com mais sabores e não envoltos num plástico, sem gosto verdadeiro, sem contato, sempre igual, sempre igual... Quando o preconceito é escrito pela ditadura branca de cada presente de grego e perdida é nossa individuação, individualização, individualiberdade.


*Obs: as 3 palavras finais do texto foram extraídas com muito carinho do poema introdutório de Marco Aurélio ao texto para teatro A Perseguição ou o longo caminho que vai de Zer a Ene, de Timochenko Webbi.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

não continua




Mais um conto meu adaptado por Amilcar Pinna

recortes surreais e subjetivos

Os Famosos e Os Duendes da Morte

Sinopse: Um garoto de 16 anos, fã de Bob Dylan, tem acesso ao restante do mundo apenas por meio da internet, enquanto vê os dias passarem em uma pequena cidade rural de colonização alemã, no sul do Brasil. Até que uma figura misteriosa o faz mergulhar em lembranças e num mundo além da realidade...

"Hey! Senhor Tocador de Tamborim,
toque uma canção para mim,
Não estou dormindo, e não há lugar onde eu possa ir.
Hey! Senhor Tocador de Tamborim,
toque uma canção para mim,
Na aguda manhã desafinada eu o seguirei."                
                           Bob Dylan - "Mr. Tambourine Man"


Os Famosos e os Duendes da Morte é um filme que dialoga com a sensibilidade da geração que se liga nas redes sociais imperativas e grandes rainhas do tempo nesse século 21. Esmir Filho (diretor do sucesso da Internet Tapa na Pantera), dá vazão, e com muita sensibilidade ao universo por qual todos nós passamos em momentos de nossa vida, no qual o vazio existencial e a agonia por uma liberdade à qual nem sabemos nomear, ilumina uma viagem melancólica e fria, que pode ser lida de tantas formas que acabamos por nos perder de nós mesmos em busca de um novo despertar.

Esmir se utiliza da mistura do granulado do vídeo online com o real para passar um conflito silencioso e de forma sensorial baseado na obra Música para Quando as Luzes se Apagam, do também ator do longa Ismael Caneppele.

Na fuga do tempo, o duende da morte caminha numa ponte surreal, no vento de vidas que se cruzam e sentimentos que se partem, mas que para aprender a se partirem, é preciso não restar cacos pelo caminho. A viagem dura o tempo de um pensamento, uma ideia que não se encerra, mutante e distante, apenas em mil recortes; de uma fotografia, um vídeo, um abraço, um trago. Na palavra infinita, tão sureal como o próprio sentimento que nem pode ser escrita, apenas uma ideia primitiva, que sempre existiu.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

write about love: belle and sebastian em são paulo


Até agora só li textos preguiçosos a respeito do show do Belle and Sebastian do dia 10 de novembro no Via Funchal. Exemplo disso foi o uso de um estado de temperatura para avaliá-lo. Morno parece ter sido a palavra-chave de muitas resenhas. A “objetividade” dos textos nada tem a ver com a imparcialidade, já que, por mais raso que eles sejam, encontrei vários insultos gratuitos sobre o repertorio e sobre os integrantes do Belle and Sebastian.


Ninguém busca numa resenha afirmações que o show foi perfeito e declarações de amor sobre a banda. Mas um fã (ou qualquer outro leitor) precisa de informações relevantes no texto e precisa que ele seja escrito por alguém que entenda do que está falando.
Esse blog não é dedicado a textos objetivos e não tem como objetivo a busca pela imparcialidade, simplesmente porque acreditamos que ela não existe. Ele é simplesmente um laboratório e aqui, ao contrário daqueles que se intitulam jornalistas, queremos, além de oferecer informações precisas, passar a emoção que sentimos ao assistir um show, ao ler um livro ou escutar uma música.
No texto a seguir, não procure um texto sobre o novo disco da banda, o Write About Love, encare apenas o título desse post como uma coincidência, já que aqui escreverei sobre amor, pelo setlist, pelos horários exatos em que o show aconteceu, ou sobre quem errou e o que faltou. Você lerá aqui apenas um fragmento de uma fã que quase perdeu o ar de seus pulmões quando soube que a banda que por tanto esperava viria tocar na sua cidade:
A quantidade de dias num mês parecem ter se triplicado depois que o Belle and Sebastian confirmou sua vinda ao Brasil. Mas aquela quarta-feira chegou. Com uma cara triste para muitos, nublada e com ameaças de chuva o dia todo, mas para mim foi simplesmente o dia mais ensolarado do ano. Meu rosto estava radiante e todos me perguntavam o porquê de tanta felicidade.
Fiz o possível para sair mais cedo do trabalho e ir para casa me arrumar para o show e colocar uns discos na bolsa, caso conseguisse falar com a banda e pedir que os autografassem. Nunca se sabe.
A princípio não consegui me acomodar no melhor lugar. A banda subiu ao palco pontualmente. O primeiro que vi se aproximar foi Stuart e sua jaqueta vermelha. Mas o primeiro som que ouvi foi a voz doce de Sarah dizer: make me dance i want to surrender.
Queria me concentrar e fixar aquela cena para sempre na minha cabeça, ao mesmo tempo em que queria desprender meus pés do chão e voar ao som daquelas músicas que eu tanto esperei ouvir.
I’m a Cuckoo, Step Into My Office e Another Sunny Day deram sequencia àquele momento inicial, quando Stevie finalmente falou com seus fãs, os convidando a cantar junto com ele I’m Not Living in the Real World, música do novo disco da banda, Write About Love.
Em seguida, alguns sortudos que estavam distante do palco ganharam bolinhas de baseball autografadas por Stuart que cantava Piazza, New York Catcher.
Mas os momentos que me fizeram ficar no passado para sempre e derramar lágrimas de alegria, nostalgia e confusão foram quando ouvi Fox in the Snow e If You’re Feeling Sinister. Ainda me sinto lá. Vi como é bom envelhecer, como é bom ficar, sozinha, eu e a banda apenas, e esquecer todos os adolescentes que estavam do meu lado.
Sleep the Clock Around parecia ser o suposto final. Outro momento marcante do show. Outro momento pessoal. A primeira música que aprendi a tocar do Belle and Sebastian. Queria tê-la escutado por uma noite inteira.
Por cinco minutos ou menos a banda deixou o palco e, quando voltou, encerrou com Jonathan David, Get Me Away From Here, I’m Dying, Judy and the Dream of Horses, Me and the Major e me deixou com sede de mais.
Mais:


Algumas fotos do show no meu Flickr
Leia também a primeira matéria do cadela verde: Fazendo de 2010 1990

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

fazendo de 2010 1990

O Brasil,e mais especificamente o estado de São Paulo, está recebendo neste ano uma grande leva de bandas internacionais que surgiram ou tiveram maior repercussão na década de 1990. Algumas dessas bandas já se apresentaram por aqui, mas outras tocam no País pela primeira vez. Nesta reportagem buscamos discutir, com a ajuda de nossos entrevistados, o fato de bandas ‘das antigas’ só estarem se apresentando em nossas terras depois de duas décadas ou mais. Também tentamos entender o porquê desta “coincidência” de grande parte dos shows e festivais estarem recebendo bandas dessa geração e, claro, apresentá-las a você por meio de minibiografias, discografias, vídeos, fotos, curiosidades e resenhas sobre os tão aguardados shows.


No dia 28 de abril de 2010, Laetitia Sadier, vocalista da banda britânica Stereolab, formada em 1990, fez uma apresentação solo no Sesc Vila Mariana. Apesar de o show ter sido intimista e sem a companhia de sua banda, ele já foi uma amostra do que viria a ser o ano de 2010, já que este foi o primeiro evento de uma banda ‘noventista’ neste ano.

No mês de maio foi a vez dos escoceses do Camera Obscura (leia resenha aqui), banda na ativa desde 1996, com quatro discos lançados durante sua carreira. O sexteto se apresentou no Studio SP, em São Paulo, e no Clube Nox, em Recife, durante a 4ª edição do Whisky Festival.

Primeiramente, a banda iria fazer apenas um show, no Studio SP, no dia 26 de maio. Ao todo, foram vendidos apenas 250 ingressos estes acabaram em pouquíssimas horas. Em resposta à reação de revolta e à tristeza dos fãs, que não são poucos, o clube de Alê Youssef e a banda negociaram mais uma apresentação no local, no dia 26 de maio.

O mês de setembro, no entanto, foi um pouco mais barulhento. A 6ª edição do Coquetel Molotov aconteceu nas cidades de Salvador, Recife e São Paulo, trouxe, com exclusividade, outra banda que nunca havia se apresentado por aqui: o trio de Massachusetts, EUA, Dinosaur Jr (leia aqui a resenha). Apesar de ter lançado seu primeiro disco em 1985, o grupo obteve maior repercussão na década seguinte, influenciando, ao lado do Sonic Youth (que, a propósito, esteve aqui ano passado, durante o festival Planeta Terra), bandas do circuito alternativo que faziam parte de movimentos como o grunge e o indie rock. Um dos fundadores do projeto Coquetel Molotov, Jarmeson de Lima, conta que “a produção da banda foi atenciosa e quis mesmo vir pra cá e tocar no festival, minimizando coisas mais difíceis de equipamentos de som e rider. O resultado foi esse que vimos: gente alucinada com os shows e mais uma banda que marcou história em nosso festival”.

Em São Paulo, o Coquetel Molotov foi realizado no Comitê Club, nos dias 27 e 28. A banda também fez uma pequena apresentação na Praça Marechal Cordeiro Faria, durante o festival de skate Adidas Skateboarding Demo, durante à tarde do dia 27. O show da Praça Marechal tornou-se, ao mesmo tempo, uma espécie de consolo para os fãs que não tiveram a oportunidade de participar dos shows que eles fariam durante a noite, e um delicioso aperitivo para os que tinham seus ingressos em mãos.

Já nesse mês (outubro), aconteceu um grande festival, o SWU (Starts With You), nos dias 09, 10 e 11 na cidade de Itu, interior de São Paulo. O evento é o maior festival de música desse ano, sediado em uma grande fazenda, a Maeda.

Durante os três dias de festival, bandas noventistas, como o The Queens of the Stone Age e Pixies, estiveram de volta e, mais quatro bandas norte-americanas se apresentaramno País pela 1ª vez: o trio norte-americano Yo La Tengo, um dos pioneiros do indie rock, que surgiu no final da década de 1980, o Rage Agains the Machine, banda na ativa desde 1991, que sofreu uma pausa em 2000 e voltou em 2007, o Incubus, formada em 1995. E, ainda, o Sublime with Rome, antigo Sublime, que estava em hiato desde 1996, devido à morte de seu vocalista Bradley Nowell.

O designer Vitor Boccio diz ter se interessado pelo SWU principalmente por causa das bandas de rock dos anos de 1990, como Rage Against the Machine, Incubus, The Queens of the Stone Age, e do início dessa década, como o The Mars Volta e Linkin Park. Boccio se surpreendeu com o Rage Against the Machine: “A banda foi simplesmente espetacular. Zack de la Rocha e Tom Morello deram um show a parte. O Zack agitou a galera para entrar na pista premium, que invadiu na mesma hora”, e com o Queens ofthe Stone Age: “Foi o melhor show do festival, ao lado do Rage Against the Machine. Com um setlist impecável, chegaram ao ápice em "Little Sister" e "No one Knows", encerraram com "A song for the deaf", do último CD.

Novembro também será um mês marcante. No dia 10, os escoceses do Belle and Sebastian finalmente voltam a São Paulo para se apresentarem no Via Funchal. No Rio de janeiro, se apresentarão no Circo Voador, dia 12. A banda não se apresentava por aqui desde 2001, no extinto Free Jazz. Esse ano também tem sido importante para a banda, eles acabaram de lançar o disco “Write About Love”, e também para os fãs, como a editora Clara Mazini: “Gosto muito do Belle and Sebastian e não esperava por esse show. Estou muito feliz e acredito que será um momento muito especial para os fãs, que há quase dez anos esperam pelo show”.

E para encerrar um ano regado de muita guitarra e coberto de flanelas xadrez, no dia 20 de novembro acontece o Planeta Terra, que receberá Smashing Pumpkins e mais duas bandas estreantes no Brasil: of Montreal, que está lançando, este ano, seu décimo disco, o "False Priest"; e o Pavement, que depois de uma pausa de 10 anos, está voltando aos palcos.

Para alguns, o Planeta Terra parece ser o festival mais esperado do ano, como para o ilustrador e quadrinista Amilcar Pinna, que diz achar que “este ano está sendo muito legal para quem foi adolescente nos anos 90 e para quem curte boa música. Já veio Dinosaur Jr e Pixies. No Planeta Terra vai ter Pavement e a banda que eu mais gosto, SmashingPumpkins. Mesmo sem os integrantes originais, tenho que ver o Billy Corgan ao vivo. Me arrependo de não ter ido ao show do Faith no More e do Sonic Youth no ano passado”. Amilcar finaliza: “esse ano vai compensar todos os shows que perdi na vida”.

O colaborador do canal “Música” do site Omelete, Rodrigo Lima Monteiro explica essa “imigração” de bandas para o território brasileiro. Segundo ele “devido ao encolhimento do mercado de shows na Europa e América do Norte, justamente por causa da crise econômica que atingiu esses dois continentes de maneira mais danosa, os produtores locais têm investido cada vez mais para trazer mais bandas médias/grandes e produzir grandes festivais”.

Monteiro comenta sobre a questão de tantas bandas de uma mesma geração estarem nos visitando este ano: “Bandas que, anteriormente, jamais viriam ao País, fosse por falta de interesse, fosse pelos altos cachês, voltam seus olhos para cá em busca de públicos "frescos", que ainda mantém o interesse em vê-las, principalmente pelo ineditismo que isso representa.” Finalizando, ele diz acreditar que esse fato não é mera coincidência: “Devido a isso tudo, não creio que seja apenas uma coincidência que diversas bandas dos anos 1990 estejam desembarcando no Brasil pela primeira vez, e sim, uma confluência de fatores que quase "as forçam" a tal sob pena de terem suas carreiras abreviadas”.

Jarmeson Lima também comenta um pouco sobre essa questão. Ele aborda dois motivos principais que fizeram bandas dessa época virem esse ano pra cá: “No auge dessas bandas nos anos 1990, a economia brasileira não permitia que produtores independentes trouxessem aquelas bandas pra cá. É bom lembrar que era uma época onde só as grandes marcas faziam festivais e de modelos gigantescos para trazer as bandas que faziam sucesso na época. Só com muita sorte pra ver alguma atração nesses eventos que fosse parte do rock underground dos anos 1990. Trazer bandas que ainda estão na ativa hoje é como se fosse algo para reparar a "injustiça" de nunca terem vindo ao país”.

Em clima de nostalgia finaliza: “Ao mesmo tempo, o público que viu aquelas bandas na MTV ou ouviu os CDs e vinis naquele tempo cresceu, não deixou de curtir a música deles. Já é hoje em dia um público "saudosista", mas fiel, que certamente iria comparecer a um show de qualquer banda boa dos anos 1990. E como naquela época, este mesmo público era ainda bem novo, ver uma banda como Dinosaur Jr ou Pavement ao vivo hoje é como realizar um sonho de infância”.

domingo, 17 de outubro de 2010

feliz aniversário



feliz aniversário é uma versão de um conto meu adaptado para HQ pelo meu amigo Amilcar Pinna




domingo, 3 de outubro de 2010

dinossauros, amplificadores e muita distorção


Posso dizer que essa foi a semana mais barulhenta do ano. E uma das melhores. Tive a chance de assistir a dois shows do trio Dinosaur Jr, banda que surgiu em 1985, e que sofreu uma pausa em 1997, década em que tiveram maior repercussão na cena do rock alternativo. A banda voltou a ativa em 2005 e nunca havia tocado por aqui.

Depois de mais de duas décadas J Mascis, Lou Barlow e Emmett Patrick Murphy visitaram pela 1ª vez terras brasileiras, passando por Salvador, Recife e São Paulo durante a 6ª edição do festival Coquetel Molotov.

Na terça-feira (28), o Dinosaur Jr tocou na Praca Marechal Cordeiro Faria, São Paulo em plena 14h de uma tarde nublada, durante o festival Adidas Skateboarding Demo. A banda tocou em baixo de uma tenda de plástico, sem palco, sem frescura e com parte de suas muralhas de amplificadores Marshall. Algumas pessoas conseguiram trocar algumas palavras com os integrantes, o máximo que eu consegui foi me aproximar um pouco para fotografar o vocalista J Mascis, que não largava sua garrafa de Coca-Cola por nada e já estava de partida. O repertório de apenas cinco músicas como Feel the Pain e The Wagon, não durou trinta minutos, mas animou o dia de todos que estavam presentes no evento e me deixou ainda mais ansiosa para assistir ao show do dia seguinte (29) no Comitê Club.
No dia seguinte cheguei cedo na Rua Augusta e entrei no clubinho logo que ele abriu, às 22h. Enquanto aguardava o show com meus amigos e escutava desatenta o set de músicas da década de 1990, pude ver os dinossauros entrando pela porta da frente do Comitê Clube e passando por todos na pista, caminhando em direção ao camarim.
                                   
O show estava marcado para as 23h, mas começou quase meia noite. Sem trocar palavras com seus fãs, o Dinosaur Jr subiu ao palco carregado de amplificadores e não perdeu mais tempo. O ambiente estava quente e Murph, o baterista logo tirou a camisa e assim deram início a primeira música: The Lung. Ouvidos preparados e lá se foram músicas como Pieces, Get Me, Raisans, Out There, Freak Scene, Feel the Pain, Over It, The Wagon, fechando a noite com a versão matadora de Just Like Heaven e um improviso estridente de Mascis e sua guitarra que, sem dúvida alguma, já é uma lenda, assim como o ensurdecedor Dinosaur Jr.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

em busca de um presente perdido

Direito de Amar (A Single Man)

“Algumas vezes na vida tive momentos de absoluta clareza. Nesses momentos, por alguns breves segundos... o silêncio abafa o barulho, e eu posso sentir em vez de pensar. E as coisas parecem tão claras... e o mundo parece tão revigorante. É como se surgisse uma nova ordem. Não posso fazer com que tais momentos perdurem. Eu me agarro a eles, mas, como tudo, eles se dissipam. Eu vivi desses momentos. Eles me trazem de volta ao presente, e eu me dou conta de que tudo está exatamente como deveria estar”


George assiste as paisagens cotidianas e procura seu lugar, procura compreender o porque de sua condição, perdido do que durante muito tempo e sem dúvidas teve como seu; um lugar no mundo, motivação para respirar profundamente e devolver um ar ainda mais vivo ao próximo. Agora se afoga num sonho, num devaneio constante, angustiado.

Não, ele não pode beijar Jim...

E nas idas e vindas de uma vida sem este ar, esbarra em lanternas que renovam, ainda que pouca, a luz de um coração desolado. As lanternas são Charley (Julianne Moore); uma ex-namorada solitária e envolta no medo de novas experiências após ser deixada por seu companheiro. E Kenny (Nicholas Hoult, o menino de Um Grande Garoto), seu aluno e simbolicamente um George de outrora, cheio de questionamentos e em busca de fixar com propriedade sua bandeira no mundo, além de ser a peça chave para o fim dos pesadelos de um homem sem novos lampejos e apenas absorto por sorrisos de um passado distante, agora apenas em suas memórias.

Direito de Amar só tem de ruim a tradução bobinha do título. Pois no todo é um filme sensível e de atuações impecáveis, daqueles tão tristes e profundos que derramam lágrimas pela beleza, para que um largo sorriso seja fruto do porvir.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

democracia e fluorescência


Você não precisa ter vivido em Nova Iorque na década de 80 para assimilar as obras de Keith Haring quando se escuta falar desta época. Grafite, metrô, hip hop eram elementos homogêneos e Haring provava isso de forma simples, porém inigualável.

Hoje a arte ganha muito mais espaço em lugares “incomuns” como em intervenções urbanas e através de formas alternativas de divulgação. Há vinte anos isso era um pouco diferente. Existiam os grafiteiros, mas o reconhecimento que estes artistas mereciam não parecia ser assunto a ser discutido. Contrariando esses valores, Keith Haring foi descoberto pelo grande público através de suas ilustrações nos espaços para anúncios vagos nas estações de metrô em Nova Iorque e pelas ruas afora, comunicando ao mundo que a arte não nasce precisamente dentro de uma boa escola. Haring desistiu de seus estudos na Ivy School of Professional Art, em Pittsburgh decidido a criar sua própria marca.


Keith Haring nos deixou há 20 anos e para celebrar suas obras cheias de vida a Caixa Cultural (Conjunto Nacional, Avenida Paulista, 2.064) realiza a exposição Keith Haring – Selected Works, uma mostra que acontece até o dia 05 de setembro com cerca de 94 ilustrações originais do artista, entre elas as coleções The Blueprint Series, The story of red and blue, Apocalypse – criada em 1988 ao lado do querido beat William Burroughs. Ainda podem-se ver objetos pessoais, fotografias e dois vídeos. Vale a pena conferir de pertinho desenhos que fizeram parte de nossa vida muitas vezes sem nos darmos conta.

Haring realizou um trabalho que ia além de coloridos bonequinhos, cachorros e golfinhos, ele democratizou a forma de se fazer arte e de usá-la para discutir questões atuais da humanidade, como o amor, a luta contra a AIDS e contra o racismo.

Sem querer “moralizar”, mas tento imaginar o que estes criadores de um passado nada distante pensariam desta sociedade “pós-tudo”, carente de uma idéia ou preguiçosa mesmo. Li uma frase de Keith que dizia mais ou menos assim: Às vezes tento esquecer de tudo que li, que ouvi, que vi para poder criar algo novo. E nós aqui buscando apenas referências dos outros e vivendo uma pseudo-intelectualidade cansativa e sem graça.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

goodbye, my blue guy.

O que dizer quando seu super-herói morre?

Harvey Pekar era (sempre será) a prova do contrário. O contrário dos filmes com finais felizes, dos super-heróis fantásticos dos quadrinhos, o contrário de que tudo um dia acaba dando certo na vida.
Harvey nunca precisou criar um personagem para se auto afirmar. Ele era o personagem. Ao contrário de muitos, ele soube traduzir seu sofrimento, seus diários de um cotidiano muitas vezes negativo, para o papel, como fez por exemplo em American Esplendor, quadrinho que, com o bom uso de sua visão pessimista da vida, nos fazia dar boas risadas com seu humor negro, e, é claro, nos identificar, já que Harvey representava aqueles que possuem uma vida aparentemente sem graça, mas, como já disse, ele era o contrário e conseguia tornar situações despercebidas em algo simplesmente incrível.

E por isso não tenho como deixar de pensar nele quando estou sozinha em casa lendo um livro, escutando meus discos de jazz. Ou quando percebo que minha opinião é singular em meio às pessoas que me rodeiam na sala de aula. Ou quando vejo que não sou e nunca serei um padrão estipulado pela televisão. Ou quando tento passar em meus textos algo longe da ficção, descrever despercebidos momentos que duram poucos segundos.

Ao meu herói dedico um espaço no tempo. Kind of Blue, para você, o eterno blue guy.

Em memória de Harvey Pekar (1939 – 2010).

quarta-feira, 23 de junho de 2010

depois do apocalipse


Mais um conto meu em versão HQ ilustrado por Amilcar Pinna.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

mate com limão







Mate com limão, meu conto em versão HQ ilustrado por Amilcar Pinna






quinta-feira, 27 de maio de 2010

i fucking love you, Charlyn Marshall!



Pensei que deixaria de acompanhar totalmente a programação da Virada Cultural deste ano, o que de fato aconteceu – aqui na capital. Porém a Virada Cultural Paulista demonstrou uma programação diferenciada, trazendo nomes como Mudhoney, Yann Tiersen e, para minha alegria, Cat Power.

A cantora-norte americana se apresentou no sábado último (22) na cidade de Jundiaí e no dia seguinte em São José dos Campos, no Parque da Cidade, onde estive presente.

O primeiro show da Cat Power que assisti foi no ano passado na Via Funchal, e como já escrevi aqui, foi sublime. A dúvida que ficou esse ano era de como um show com praticamente o mesmo repertório da apresentação anterior pudesse causar o mesmo impacto que causou na fria e intimista noite de julho ano passado, já que desta vez o show era a céu aberto e – sem subestimar ninguém, um público mais genérico, já que, além de fãs, também estavam presentes famílias, políticos entre outras pessoas que foram apenas passar o domingo no parque. Pois é. Foi diferente.

Enquanto o roadie da banda e outros técnicos arrumavam o palco antes do show, a música ambiente oferecida pela produção era da pior qualidade e nada tinha a ver com o público da cantora. Entrando com quase uma hora de atraso - já que os equipamentos sonoros custaram a “funcionar”, Cat Power chega, com um ar tímido no rosto, porém acenando para o público. O microfone chiando e vamos lá: Don’t Explain é a música que inicia a apresentação que, a meu ver parecia condenada devido à má qualidade dos equipamentos. Cheguei a pensar que ela iria desistir e ir embora. Mas o que aconteceu foi o inesperado. Chan nunca esteve tão simpática, declarando seu amor pelo Brasil várias vezes, mandando beijos e fazendo até piadinhas com o público – bem diferente daquela mulher que assisti ano passado em que disse apenas um ”boa-noite” para os fãs.

O show seguiu basicamente com teclado, guitarra e às vezes o roadie da banda arriscava algumas músicas na bateria. O repertório incluiu faixas dos álbuns The Greatest, Jukebox e do EP The Dark End of the Street, como Sea of Love, Angelitos Negros, Metal Heart, Song to Bobby, Woman Left Lonely, Live in Bars, The Greatest, entre outras.

Eu tive a sorte de ficar na grade, olhando nos olhos de Chan o tempo todo, porém quem estava entre o palco e a grade eram fotógrafos, jornalistas, diversos políticos e “seus camaradas” e uma banda que quase dormiu no show. Ou seja, tirando aqueles que estavam trabalhando, o “privilégio” de estar mais próximo da cantora foi dado para as pessoas erradas. Eu vi mais flashs dos fotógrafos na cara do prefeito do que nos músicos.

Logo no começo do show, Chan Marshall disse que gostaria que todos seus fãs estivessem ali no palco, perto dela. Felizmente seu desejo foi realizado: A cantora assumiu a bateria e junto à guitarra tocaram I wanna ber your dog, dos Stooges e dado este momento, percebi que alguns fãs estavam invadindo a área do palco, driblando os seguranças, e, inúmeras pessoas pularam a grade para se aproximar de Cat Power. A organização não soube muito o que fazer e agradecida, a cantora termina a música e vai ao encontro dos fãs para distribuir flores (das quais ganhei uma!), dar adeus e dizer para seus fãs já enlouquecidos: “I fucking love you” e ir embora.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

o eterno caso de amor de woody allen



O que vou contar aqui não é novidade pra ninguém. Mas quando assisti Tudo pode dar certo (Whatever Works, 2009), último filme de Woody Allen gravado em Nova York, pude sentir o mesmo entusiasmo que Woody Allen demonstrava em filmes como Manhattan (1979), por exemplo, ao descrever a cidade norte-americana. Claro que o roteiro de Tudo pode dar certo ajuda e muito a criar esse clima nostálgico, nos fazendo lembrar de antigas obras do diretor, já que o roteiro foi escrito em 1977. Mas acredito que a data não importa, já que, depois de 32 anos o filme chega às telas com o mesmo frescor, com o mesmo ritmo que víamos Woody Allen narrando na década de 1970.

Larry David encarna Woody Allen de forma, desculpe o exagero, impecável. David interpreta o físico ranzinza Boris Yellnikoff, que vive a criticar a raça humana e num momento inesperado de sua vida encontra uma garota que pensa de forma totalmente oposta a ele. A garota fugiu de casa e começou a morar com Boris. Logo, sua mãe e por final seu pai vão para a cidade também.

Todos os personagens da família sofrem mudanças, ou se revelam no decorrer da história, graças à Nova York e suas possibilidades. Woody Allen mostra que está falando sobre algo que o pertence, e, mesmo demonstrando tanta paixão pela cidade, ele ainda consegue satirizar alguns “tipos” que surgem em qualquer metrópole, como pseudo-intelectuais e os estereótipos que inventam para definir o que é arte ou não e até mesmo sobre o conceito de felicidade.

Mas por trás de tanto sarcasmo pode-se dizer que Tudo pode dar certo é um filme feliz a primeira vista, se você não desconfiar do final forçado em que Boris tenta se suicidar cai em cima de uma vidente e acaba ficando com ela.



Leia também a cobertura que fiz na mostra do cineasta ano passado no CCBB:


encontros com Woody Allen - parte 1


encontros com Woody Allen - parte 2

encontros com Woody Allen - parte final

segunda-feira, 29 de março de 2010

ah se o oscar falasse...



Sempre vale uma reflexão quando se trata do mais famoso de um segmento. O que é o caso, quando se trata de premiação do ramo cinematográfico.


Se por um lado não se pode negar que grande parte dos filmes que influenciam, marcam e preenchem a maior parte da lista de favoritos, passam pelos 45 segundos emocionados- ou não- dos vencedores da noite de gala; por outro lado alguns levantamentos precisam ser feitos, mesmo para incitar algo a mais que a cega babação e o consentimento adestrado de nós, os espectadores.



1º- Ninguém (ou sou o único?) viu algum dia m relatório final, com as conclusões do júri que esclareça o porque das escolhas dos vencedores.

2º- Quem dá o prêmio é a mídia e as especulações antecedentes a noite do tapete vermelho, ou o júri? Afinal de contas, quando fomos realmente surpreendidos? Todos apostaram em "Avatar", que pagou a festa, mas tinham em "Guerra ao Terror" algumas fichas gastas. Resultado: o 2º mais óbvio vence, assim como foi no ano passado, no embate entre "Quem Quer Ser um Milionário?" e "O Curioso caso de Benjamin Button".

3º- É de se levar a sério uma premiação que põe os “garotos” de casa na premiação principal e segrega TODO o resto do planeta ao absurdo Oscar de Melhor Filme Estrangeiro? Vamos lá, coragem Hollywood!!!

Agora vai a dica de 3 filmes que estavam lá, e como era esperado não levaram nenhuma estatueta, mas trouxeram vitalidade e originalidade em seus enredos.


Distrito 9


Graças ao olhar atento de Peter Jackson (Trilogia O Senhor dos Anéis), o diretor sul africano Neill Blomkamp realizou essa ficção científica em que se utiliza da coexistência entre humanos e extraterrestres para falar de racismo, xenofobia e segregação racial. Dissimulado, Blomkamp recorreu a ficção para tecer sua visão de mundo sem que dê muito na cara.





A Teta Assustada


A Teta Assustada é o nome que se dá a uma suposta doença transmitida pelo leite materno, que afeta filhas de mulheres que foram violentadas. Este longa peruano escrito e dirigido por Claudia Llosa, e que levou o Urso de Ouro no Festival de Berlim, se utiliza da história recente do país, de violência, terrorismo e instabilidade social entre 1980 e 2000, para contar a história exótica e Fausta (Magaly Solier), que em sua interpretação silenciosa, representa o fruto traumático das mulheres violentadas no país.



Coraline & o Mundo Secreto


Baseada no livo infanto-juvenil de Neil Gaiman, essa animação de Henry Selick é uma pedra preciosa, com ecos de "Alice no País das Maravilhas" e traços burtianos. Concorreu ao prêmio de melhor animação no Oscar- premiação que foi redundante, já que "Up! Altas Aventuras" concorria ao prêmio de melhor filme. Vale a pena pela história cativante e riqueza de imaginação.

terça-feira, 2 de março de 2010

cadê a graça?


Embora eu não seja grande fã dos irmãos Cohen, fiz questão de assistir ao novo longa da dupla Um homen sério (A serious man) – talvez porque me resta um pouco de esperança em encontrar algum fragmento perdido de o Grande Lebowski (The Big Lebowski, 1998) em seus trabalhos mais novos que os faça recuperar o fôlego. Enfim, o sucessor de Queime depois de ler (Burning after reading, 2008) conta a história de Larry Gopnik, um cara judeu que vive no ano de 1967 e passa por uma série de desavenças, problemas no trabalho, no casamento...e de toda essa desgraça, pensava eu que a ideia era a de ridicularizar tais situações e fazer o público rir. Mas por trás de toda aquela fotografia colorida que Roger Deakins usou para contrastar aquelas cenas de tensão eu não consegui ver a válvula de escape que podia tornar o filme uma comédia. Humor negro? Sei que eles podem ser craques nesse quesito, mas não consegui considerar essa hipótese, já que, a meu ver o clima carregado acabou desmoronando e não houve piada que fizesse o filme recuperar sua força.

Os Cohen são conhecidos por seu sarcasmo e já ouvi muitos dizerem que seu humor é inteligente. Um homem sério satiriza a cultura/religião judaica, mas percebo que ainda falta muito para eles nos convencerem dessa “geniosidade”. A comédia – gênero que eu posso até não ter propriedade para discutir, mas todos sabem que nela é preciso ter repertório em cada diálogo, você critica, mas critica o que? E por quê? Eu não vi clareza nem argumentos para sua defesa. Eu vi um vazio. O filme pode estar longe de ser uma boa comédia, porém, mais distante ainda de ser um filme sério.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

quero ir à lua - parte 2

Não posso deixar de comentar o post anterior...
A internet então é um meio democrático em meio a tal circunstância? Ou, como citado abaixo, a pirataria em si. Eu não consigo acreditar que tem gente que ainda se deixar convencer que a exibição, a divulgação é escassa porque o interesse público é mínimo. Qual a função da indústria cultural? Educar, censurar?
Sejamos então uma geração de piratas sedentos...

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

quero ir à lua



Volta e meia passo por uma loja ou barraca de camelô, e garimpo verdadeiros futuros clássicos e cults. E compro no camelô mesmo, já que a maioria deles não passam pelas telonas. (essa frase não inclui hipocrisia, pois sim, eu pirateio, nem locadora compra filme novo mais!).
É realmente importante a experiência e o esforço que a indústria cinematográfica faz atualmente para que não morra. Esforço que teve seu reinício e salvação recente com os efeitos criados pelos irmãos Wachowski, levando as possibilidades visuais para outro patamar.., estendido e malhados nos longas de super - heróis, em poucos momentos aproveitados em todo seu potencial. Agora é o Cameron e seu Avatar, de novo aclamado como salvador da indústria. E pode apostar,e vale um post de retratação se não arrastar as principais estatuetas. Afinal de contas, um depende do outro.
Mas voltando ao foco, depois desta enorme parêntese sem parêntese, é preciso ter em mente que existe algo além de socos, chutes e entretenimento; a reflexão. Por exemplo, esperei pelos cinemas, sofri para achar, e só consegui ver em casa a pouco tempo uma pedra preciosa, Lunar - primeiro longa do filho do camaleão e homem das estrelas, David Bowie.
O filme de Duncan Jones é sensacional, hipnótico, e com uma grande atuação de Sam Rockwell, que faz quase um monólogo, duelando consigo mesmo, através de técnicas de sicronia. É ver pra crer.
Mas depois da sessão caseira pensei: "Por que não pasou no cinema? Descaso? Pouco potencial lucrativo? Ruim? Caso a primeira e segunda opções e me dirijo aos caros distribuidores "Se salvem, mas não me subestimem nem carreguem meu intelecto junto"".

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

para o garoto de cabelos brancos


Querido Jerome,
Acho que não preciso de tanta formalidade.
Querido Holden,
Sim, Holden Caulfield. Pois para mim e acredito que para a maioria de seus amigos leitores, que assim como eu, mandam mensagens para você (sem esperar resposta alguma), esse é o seu verdadeiro nome. Seymour até que lhe cai bem, mas não adianta. Enfim, vamos começar logo com isso.

Não quero tomar seu tempo, tentarei ser breve. Na verdade quero apenas agradecer por ter te conhecido um dia, quando ainda estava na escola e pensava que só eu no mundo odiava estar ao lado daqueles babacas que a gente é obrigado a conhecer. Que só eu era contraditória ao ponto de odiá-los e querer alguém por perto de vez em quando, pra bater um papinho. Eu não era. Acho que você foi o primeiro. Você agiu por mim nas horas que eu queria fugir, encher a cara e dizer ser outra pessoa, apenas para evitar conversas.

Sabe do que mais? Não me importo em não poder te ligar e dizer isso, como você mesmo comentou certa vez...você é o meu preferido mesmo sem gostar de cinema, sem querer sair de casa, sem tentar. Eu poderia dizer aqui que quase tudo o que escrevi na vida, escrevi pensando em você, aliás, já coloquei seu nome como título de alguns textos meus, mas acho que você não liga pra isso.

Neste momento eu queria poder alisar seus cabelos brancos com meus dedos trêmulos. Eu, que também envelheci tão nova. Sei que heróis como você não morrem jamais. Mas dói saber que hoje você sai de sua casa e vai para um lugar que eu não sei onde fica.

Mas pode deixar que qualquer coisa te peço conselhos consultando as páginas gastas de seu diário na minha cabeceira.
Espero que ninguém te encontre e que quando chegar lá, ganhe um forte abraço.

Em memória de Jerome David Salinger (1919-2010)

domingo, 24 de janeiro de 2010

resgatando terras



Ontem fui parar em um lugar onde fazia tempo que não ia: meu esconderijo secreto. Fiquei feliz quando cheguei porque tudo estava do jeito que eu havia deixado da última vez. Para relembrar o caminho não precisei sequer fechar os olhos, na verdade, os mantive bem abertos, fixados na tela do cinema. Assisti ao longa dirigido por Spike Jonze, Onde vivem os monstros, adaptação do livro infantil do escritor/ilustrador norte-americano Maurice Sendak, Where The Wild Things Are (1963).

A história de Max não é muito diferente das de outras crianças (mas crianças de que época? Na sala de cinema 99% das pessoas que estavam assistindo ao filme eram adultos, crianças que não cresceram, entenda como quiser). Após uma briga com sua mãe o garoto parte para uma aventura imaginária, daquelas, que costumávamos ter há bons anos, e encontra criaturas fantásticas. Max se torna rei da terra explorada por sua imaginação.

Onde vivem os monstros resgata todos aqueles sentimentos de euforia e medo que sofremos quando crianças, fazendo-nos querer resgatar aquela terra perdida no tempo, aquela terra que sempre foi nossa e nunca nos demos conta. Nos emociona com a ótima trilha sonora de Karen O. (líder da banda nova-iorquina Yeah Yeah Yeahs) e um conjunto de vozes infantis: Karen O. And The Kids.

Quero ser breve aqui para não cair na pieguice, mas Onde vivem os monstros tem todas as chances para se tornar um clássico do cinema infantil, que, hoje nem parece mais ser feito para crianças, mas para quem já foi criança, daquelas, que gostam de se sujar e não chegaram a conhecer, por exemplo, a internet. Porém fico na torcida para que mais crianças assistam a esse filme e se tornem reis de sua imaginação novamente.