quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

para o garoto de cabelos brancos


Querido Jerome,
Acho que não preciso de tanta formalidade.
Querido Holden,
Sim, Holden Caulfield. Pois para mim e acredito que para a maioria de seus amigos leitores, que assim como eu, mandam mensagens para você (sem esperar resposta alguma), esse é o seu verdadeiro nome. Seymour até que lhe cai bem, mas não adianta. Enfim, vamos começar logo com isso.

Não quero tomar seu tempo, tentarei ser breve. Na verdade quero apenas agradecer por ter te conhecido um dia, quando ainda estava na escola e pensava que só eu no mundo odiava estar ao lado daqueles babacas que a gente é obrigado a conhecer. Que só eu era contraditória ao ponto de odiá-los e querer alguém por perto de vez em quando, pra bater um papinho. Eu não era. Acho que você foi o primeiro. Você agiu por mim nas horas que eu queria fugir, encher a cara e dizer ser outra pessoa, apenas para evitar conversas.

Sabe do que mais? Não me importo em não poder te ligar e dizer isso, como você mesmo comentou certa vez...você é o meu preferido mesmo sem gostar de cinema, sem querer sair de casa, sem tentar. Eu poderia dizer aqui que quase tudo o que escrevi na vida, escrevi pensando em você, aliás, já coloquei seu nome como título de alguns textos meus, mas acho que você não liga pra isso.

Neste momento eu queria poder alisar seus cabelos brancos com meus dedos trêmulos. Eu, que também envelheci tão nova. Sei que heróis como você não morrem jamais. Mas dói saber que hoje você sai de sua casa e vai para um lugar que eu não sei onde fica.

Mas pode deixar que qualquer coisa te peço conselhos consultando as páginas gastas de seu diário na minha cabeceira.
Espero que ninguém te encontre e que quando chegar lá, ganhe um forte abraço.

Em memória de Jerome David Salinger (1919-2010)

domingo, 24 de janeiro de 2010

resgatando terras



Ontem fui parar em um lugar onde fazia tempo que não ia: meu esconderijo secreto. Fiquei feliz quando cheguei porque tudo estava do jeito que eu havia deixado da última vez. Para relembrar o caminho não precisei sequer fechar os olhos, na verdade, os mantive bem abertos, fixados na tela do cinema. Assisti ao longa dirigido por Spike Jonze, Onde vivem os monstros, adaptação do livro infantil do escritor/ilustrador norte-americano Maurice Sendak, Where The Wild Things Are (1963).

A história de Max não é muito diferente das de outras crianças (mas crianças de que época? Na sala de cinema 99% das pessoas que estavam assistindo ao filme eram adultos, crianças que não cresceram, entenda como quiser). Após uma briga com sua mãe o garoto parte para uma aventura imaginária, daquelas, que costumávamos ter há bons anos, e encontra criaturas fantásticas. Max se torna rei da terra explorada por sua imaginação.

Onde vivem os monstros resgata todos aqueles sentimentos de euforia e medo que sofremos quando crianças, fazendo-nos querer resgatar aquela terra perdida no tempo, aquela terra que sempre foi nossa e nunca nos demos conta. Nos emociona com a ótima trilha sonora de Karen O. (líder da banda nova-iorquina Yeah Yeah Yeahs) e um conjunto de vozes infantis: Karen O. And The Kids.

Quero ser breve aqui para não cair na pieguice, mas Onde vivem os monstros tem todas as chances para se tornar um clássico do cinema infantil, que, hoje nem parece mais ser feito para crianças, mas para quem já foi criança, daquelas, que gostam de se sujar e não chegaram a conhecer, por exemplo, a internet. Porém fico na torcida para que mais crianças assistam a esse filme e se tornem reis de sua imaginação novamente.