quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

se você enxerga cores e luzes é o seu cérebro pedindo pra você SE MOVER

Jornalismo e superficialidade hoje se relacionam de forma escandalosa. Estou generalizando? Sim. Há exceções. Mas temo um dia ler a primeira frase desse texto e pensar que escrevi um fato óbvio.

Infelizmente os melhores achados estão no passado. Mas eles nos dão certa esperança de que é possível se fazer uma grande obra e salvar o jornalismo do abismo em que se encontra.
Esse último achado foi O teste do ácido do refresco elétrico (The Eletric Kool-Aid Test), de Tom Wolfe. Há um bom tempo procurava por esse livro, encontrei-o em setembro passado num sebo da Rua Augusta em que passei despretensiosamente antes de encontrar uma amiga num café.

Você que está começando a ler esse texto e já leu algum outro post do cadela, sabe que escrevemos sobre temas variados, porém sempre atuais. Essa parece ser uma exceção, mas talvez, quando terminá-lo de ler, poderá entender o porquê desse post sobre um livro de 1968.
Aprendemos desde criança a encarar o jornalismo como algo que aborda apenas o factual. E isso em parte é verdade, mas ele é mais do que isso. O factual pode transcender.

O que hoje é apenas um diário pode ser tornar um livro de história e mais, uma obra literária, como provou Tom Wolfe nessa obra que, a princípio pensava em escrever apenas uma matéria sobre o romancista Ken Kesey, autor do livro Um estranho no ninho (One Flew Over The Cuckoo's Nest, 1962), que no momento se encontrava numa prisão. Wolfe tinha apenas dez minutos para conversar com Kesey sobre o que ainda era tema de sua matéria: Jovem romancista foge durante oito meses pelo México.

Aqueles dez minutos duraram um pouco mais e o autor mergulhou de cabeça na cena hippie e vanguardista da Califórnia, traduzindo em palavras todo movimento da contracultura, tendo como personagem principal, o mais que romancista, o sociopata, o semideus Ken Kesey, construindo uma obra que é referência tanto no jornalismo, quanto na literatura, se é que se pode limitar O teste do ácido do refresco elétrico à apenas essas categorias. É uma obra singular, que corre sozinha pela história.

Tom Wolfe, jornalista norte-americano que, ao lado de nomes como Norman Mailer e Gay Talese, ajudou a sustentar as bases do New Journalism, movimento que, simplificando, uniu o jornalismo às estruturas da literatura, nos faz viajar num ônibus escolar modelo 1939, que comprou por $1.500 dólares em nome de Viagens Intrépidas, Associados, o dinheiro proveniente desse fundo que Kesey compartilhava com seus Festivos (nome do grupo de número oscilante que o acompanhava) vinha do lucro de seus livros publicados.

Nessa viagem sem volta pela década de 1960 conhecemos o Estados Unidos da contracultura, esbarramos com alguns Beats, como Neal Cassady e Kerouac, ao som de Grateful Dead, Beatles, Jefferson Airplane...parecia até que os beats haviam feito seu trabalho de maneira certa. O mundo certamente seria um lugar melhor se.

E as páginas escritas em caixa alta seguidas de todos aqueles pontos de exclamação?! Meus ouvidos chegaram a doer!

E meus olhos até ardiam ao ler sobre todas aquelas cores das tintas, das roupas, do cérebro. E o mundo parecia muito mais colorido que esse cinza.

E ninguém parecia ter dinheiro ou se importar com ele.

E todo mundo parecia ter algo a dizer.

Queria ter ficado por lá, sendo guiada pelo fantástico motorista Neal Cassady que abastecia sua mente com LSD e dirigia melhor do que ninguém, até o paraíso.

Mas eu virei a última página e ela tinha um ponto final.


MOVA-SE
MOVA-SE
MOVA-SE
MOVA-SE
MOVA-SE
MOVA-SE
MOVA-SE
MOVA-SE
MOVA-SE
MOVA-SE
MOVA-SE
SEU CÉREBRO NÃO É UMA MASSA CINZA. ELE É COLORIDO E ESTÁ GRITANDO!

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