terça-feira, 1 de março de 2011

a nudez do homem por antonio carlos viana

-Que haja vida! Grita a voz do cotidiano por estas paragens, no mês do Caranaval e do segundo nascimento, pra roda girar, e engrenar...

E a cadela já começa pedindo a benção ao gênio Tom e a eterea Elis, se banhando nas "águas de março", e pulsando, e escancarando palavras do mundo, prontas para pegar no ar... olhando pela janelinha dos olhos, e assistindo a vida simples, complexa, paradoxal, normalmente estranha, esquisita no canto da memória de criança, ao tomar a narrativa da avó louca, do trator que chega para demolir o barraco; e tudo cai e apenas o pirão é salvo, ao avistar do outro lado a irmã, segurando as alças do pirão, que é motivo de festa frente às agruras da miséria.

Em certo momento a garota lembra com dor do sorriso, hoje esbanjado às custas de um tempo de ferida ainda aberta, um buraco, ao contrário do cariado, que não pode ser fechado, aberto pelo dentista de fundo de quintal através de abusos sexuais.

Em Cine Privê, livro lançado pela Compahia da Letras em 2009, Antonio Carlos Viana abre a janela indiscreta de gente que perdeu o amor muitas vezes por si próprio, abandonado à esmo, caminhando pelas ruas cinzentas em busca de um motivo, uma sensação, algo...

O senhor rejeitado pela mulher limpa as "porcarias" dos outros, como o mesmo chama, após as sessões de streaptease, nas cabines imundas, por onde á certa altura revela, já passaram até Os dez mandamentos, quando ainda era um cinema de verdade; no conto que batiza o livro.

Cine Privê é um livro de leitura fácil e certeira, já que Viana não dá rodeios e vai direto ao ponto com talento, seja pela lembrança de criança ou pelo narrador que entrega um futuro estilhaçado ou encerra o conto com uma palavra qualquer, comum, direto na cabeça do dia a dia, que mascarado numa bela dançarina circence, oculta uma mulher da vida, cheia de marcas, a cada hora novamente atingida.

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