sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

dublê mike contra as garotas selvagens


Tarantino com certeza se saiu melhor que Rodrigues em sua parte de Grindhouse. Na sua homenagem aos filmes de carros antigos, o diretor que já fez simplesmente "Cães de Aluguel", Pulp Fiction" e "Jackie Brown", para citar alguns, pinçou uma trilha sonora de arrebentar! - com direito a Juicebox - e chamou belas garotas, carros clássicos com motor tinindo e uma figuraça: Dublê Mike ( Kurt Russel impecável, num topete rock a Billy). Imagine todo mundo chapando, embalando os diálogos já famosos no roteiro de Tarantino, cheios de referência da cultura pop, entre uma caçada e outra do Dublê Mike com seu carro À Prova de Morte.

Uma dança erótica da infame Butterfly (Vanessa Ferlito) ao som de "Down in Mexico" do Coasters ali, uma perna voando aqui, garotas botando o terror com um bastão acolá; prepare-se para os novos filhotes do "barman" Tarantino. À Prova de Morte é divertido, sexy, e sim, muito trash!
Obs: Tente contar quantos socos Dublê Mike leva sem cair na cena final.




Leia também: Ode à uma geração bastarda, resenha do filme Bastardos Inglórios, também do Tarantino

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

se você enxerga cores e luzes é o seu cérebro pedindo pra você SE MOVER

Jornalismo e superficialidade hoje se relacionam de forma escandalosa. Estou generalizando? Sim. Há exceções. Mas temo um dia ler a primeira frase desse texto e pensar que escrevi um fato óbvio.

Infelizmente os melhores achados estão no passado. Mas eles nos dão certa esperança de que é possível se fazer uma grande obra e salvar o jornalismo do abismo em que se encontra.
Esse último achado foi O teste do ácido do refresco elétrico (The Eletric Kool-Aid Test), de Tom Wolfe. Há um bom tempo procurava por esse livro, encontrei-o em setembro passado num sebo da Rua Augusta em que passei despretensiosamente antes de encontrar uma amiga num café.

Você que está começando a ler esse texto e já leu algum outro post do cadela, sabe que escrevemos sobre temas variados, porém sempre atuais. Essa parece ser uma exceção, mas talvez, quando terminá-lo de ler, poderá entender o porquê desse post sobre um livro de 1968.
Aprendemos desde criança a encarar o jornalismo como algo que aborda apenas o factual. E isso em parte é verdade, mas ele é mais do que isso. O factual pode transcender.

O que hoje é apenas um diário pode ser tornar um livro de história e mais, uma obra literária, como provou Tom Wolfe nessa obra que, a princípio pensava em escrever apenas uma matéria sobre o romancista Ken Kesey, autor do livro Um estranho no ninho (One Flew Over The Cuckoo's Nest, 1962), que no momento se encontrava numa prisão. Wolfe tinha apenas dez minutos para conversar com Kesey sobre o que ainda era tema de sua matéria: Jovem romancista foge durante oito meses pelo México.

Aqueles dez minutos duraram um pouco mais e o autor mergulhou de cabeça na cena hippie e vanguardista da Califórnia, traduzindo em palavras todo movimento da contracultura, tendo como personagem principal, o mais que romancista, o sociopata, o semideus Ken Kesey, construindo uma obra que é referência tanto no jornalismo, quanto na literatura, se é que se pode limitar O teste do ácido do refresco elétrico à apenas essas categorias. É uma obra singular, que corre sozinha pela história.

Tom Wolfe, jornalista norte-americano que, ao lado de nomes como Norman Mailer e Gay Talese, ajudou a sustentar as bases do New Journalism, movimento que, simplificando, uniu o jornalismo às estruturas da literatura, nos faz viajar num ônibus escolar modelo 1939, que comprou por $1.500 dólares em nome de Viagens Intrépidas, Associados, o dinheiro proveniente desse fundo que Kesey compartilhava com seus Festivos (nome do grupo de número oscilante que o acompanhava) vinha do lucro de seus livros publicados.

Nessa viagem sem volta pela década de 1960 conhecemos o Estados Unidos da contracultura, esbarramos com alguns Beats, como Neal Cassady e Kerouac, ao som de Grateful Dead, Beatles, Jefferson Airplane...parecia até que os beats haviam feito seu trabalho de maneira certa. O mundo certamente seria um lugar melhor se.

E as páginas escritas em caixa alta seguidas de todos aqueles pontos de exclamação?! Meus ouvidos chegaram a doer!

E meus olhos até ardiam ao ler sobre todas aquelas cores das tintas, das roupas, do cérebro. E o mundo parecia muito mais colorido que esse cinza.

E ninguém parecia ter dinheiro ou se importar com ele.

E todo mundo parecia ter algo a dizer.

Queria ter ficado por lá, sendo guiada pelo fantástico motorista Neal Cassady que abastecia sua mente com LSD e dirigia melhor do que ninguém, até o paraíso.

Mas eu virei a última página e ela tinha um ponto final.


MOVA-SE
MOVA-SE
MOVA-SE
MOVA-SE
MOVA-SE
MOVA-SE
MOVA-SE
MOVA-SE
MOVA-SE
MOVA-SE
MOVA-SE
SEU CÉREBRO NÃO É UMA MASSA CINZA. ELE É COLORIDO E ESTÁ GRITANDO!

mais uma bela fuga com antony and the johnsons


Para os desavisados, a música do Antony and The Johnsons pode soar muito dramática, exagerada. Mas para quem está afim de se aventurar em seu universo, ou acompanha a total entrega, instrumentação de primeira linha, com belos arranjos, que Antony Hegarty interpreta de forma bela e singular num canto soturno desde o intenso e inesquecível álbum homônimo de 1998, verá uma arte sublime neste Swanlights, 4º álbum de estúdio, que incrementa com novas e misteriosas paisagens a massa de seu consistente legado .

A primeira faixa, "Everything is New", vai crescendo até agarrar o ouvinte, e daí em diante é cada vez mais para o fundo, no piano que te chama e te carrega em "Ghost"; na hipnótica "Swanlights", com canto e intrumentação que remete a um sonho dentro de um sonho, num dia de neblina e chuvisco.

"The Spirit Was Gone" é uma música tocante, que dialoga com momentos do 1º álbum. "Thank You For Your Love" tem clima leve, uma saudação de agradecimento após a tormenta, com ótimos metais do meio em diante, para dançar e cantar junto.

Antony convida a também excêntrica e sempre ótima Björk para contribuir com sua voz em "Flétta", o que é, aliás, uma retribuição pela contribuição de Athony nas faixas " The Dull Flame of Desire" e "My Juvenille" em seu álbum Volta.

Na última canção da obra, "Christina’s Farm", Hegarty com seu piano se encarrega de fazer o que faz como poucos, emocionar e deixar a certeza de que só uma pedra é capaz de passar ileso por sua música.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

"feito pra acabar" e tocar de novo!


A primeira vez em que passou por meus olhos o nome de Marcelo Jeneci, foi em uma CULT especial, e junto ao seu nome outros apareciam como Tulipa Ruiz e Karina Buhr, representando uma nova geração de músicos e intérpretes talentosos. Ao assistir uns vídeos do músico na net fiquei meio boquiaberto  e dei um jeito de conseguir a bolachinha que acabara de sair.

Não tardou e Jeneci apareceu em meio a outros talentos num comercial de TV, e bombou nas listas de 2010 de para melhores canções, álbum e revelação.

Não por menos, "Feito pra Acabar" é uma caixa preciosa com canções pop açúcaradas, daquelas que, aceite ou não, contam como fábula aos ouvidos palavras que vão direto para a memória de um momento em sua vida, ou no agora, subjetivamente, descascando uma ferida, apalpando uma sensação. A música de Jeneci é elaborada e lapidada para passar mensagens verdadeiras, sem pieguice; e na medida emocional certa, seja na leveza de um dia com sombra e água de coco  em "Jardim do Éden", interpretada por Laura Lavieri, sua parceira musical desde 2007. Ou com o peso de "Quarto de Dormir", som de cortar o coração e deixar uma saliva angustiada presa na garganta.

Além de Lavieri, que contribui com sua doce voz no disco, o músico contou com uma galera peso-pesado na assinatura do álbum. A primeira pérola; "Felicidade", é parceria com Chico César, com quem Jeneci começou sua carreira em 2000, tocando piano e sanfona. Os arranjos ficaram por conta de Arthur Verocai, e a banda conta com Régis Damasceno no baixo, Curumim na bateria, e Edgard Escandurra na guitarra, dentre outros. E por fim, Kassin assina a produção, empacotando com delicadeza as diversas terras visitadas pelo músico.

"Pra Sonhar", "Dar-Te-Ei, "Por Que Nós?", "Pense Duas Vezes... É sempre o amor, o amor que todos já sentiram e, ou sentirão, cantado com verdade, sem caminhos fáceis e "inocentes". Um presente que termina com a faixa que batiza o álbum, deixando o coração já órfão num gostinho de quero mais, por tão bela despedida já na apresentação.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

conversa com cavernistas (l)

Visão Mutilada ou A Busca

Em um sonho, Renée não reconheceu as coisas cotidianas que o cercavam. Talvez numa tentativa inconsciente e desesperadora de fugir da realidade que vivia. Ou será que essa tal realidade seria simplesmente um jogo de interesses maiores? Uma contradição real; "O senso comum mas não o senso de todos".

Renée é o jovem se preparando para o que chamam em algum lugar de O despertar da vida. E mais! Talvez seja eu, você..
Vestiu a pele do nome Filósofo e conseguiu, ou ao menos tentou se livrar dos grilhões e sair da caverna.

A Caverna. O Big Brother de Platão nos vigiando, censurando e controlando. Invadindo a mente, a alma. A alma remanescente que talvez já nem mereça tal nome. O resto de entre o sexo dos pais e a primeira palmada na bunda.

Você se solta, sai a vê além. A natureza! A natureza selvagem! A vida em seu estado puro, sem deturpações e medições do homem em seu pessoal que, por mera ambição, tenta estabelecer o um ao coletivo. Não há soma, e sim multiplicação em série.

Você retorna afim de salvar seus semelhantes, e risos e canivetes chovem em sua cabeça e lhe sangram até a morte dos sonhos. Será que os homens realmente não acreditam? Será que a risada não foi apenas um disfarce, tal qual uma armadura, para esconder o medo? O medo do desconhecido, da quebra de sua não cria, da tão difícil aceitação. Enfim, de sua própria luz.

E sem preparação não há aceitação para aquele que foi condicionado e teve seus sentimentos e cérebro massacrados pelo senso comum. O que resta é uma espécie de máquina, que se agarrou na única chance, esperança ou qualquer outro nome que se queira dar a isso. Eu diria esmola, a deficiência monocular de perspectivas.
O homem então vive na caverna, de olhos fechados, vendo o que todos vêem há muito tempo com os olhos de Leviatã.

O homem não morre. Sai rastejando e ferido. Não resiste ao sonho que se sonha só. Mas sua última visão foi de olhos abertos.

Adeus Renée, adeus eu, você em algum lugar no tempo. Em algum ponto de nossas pobres vidas, talvez o último agraciado com um pouco de orgulho.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

lutas reais


Com a proximidade do Oscar, na opinião de quem vos escreve, um dos prêmios mais medíocres da indústria cinematográfica, é hora de falar das estrelas que podem brilhar este ano. Mas vamos falar por merecimento, e não só por milhões de libras investidas e tecnologia que encobre do espectador o distanciamento do cinema - arte.

Para começar vamos falar de "O Vencedor" (The Fighter), daqueles diretos e sem rodeios desnecessários. Baseado em uma história real, o longa conta a derrocada de uma jovem promessa no esporte, Dicky Eklund, cujo maior feito na carreira aconteceu em 1978, ao "derrubar" Sugar Ray Leonard, em uma luta que acabou perdendo. Mas que vê sua vida visitar o fundo do poço ao se viciar em crack. Agora é seu irmão, Mick Ward, treinado por Eckund, quem carregará o sonho do boxe junto ao fardo de toda uma família cheia de amor vampiresco.

É exatamente essa a vantagem do longa; a falta de grandes pretenções. O filme tem pinta de produção para TV, mas se destaca pelas atuações do trio de ferro Mark Wahlberg, Melissa Leo e Christian Bale. E palmas para Bale, que arrebenta na pele de Dicky Eklund. Aliás, pele, trejeitos, voz e tudo mais. O ator realmente incorpora como pouco já se viu no cinema, dando fôlego ao filme em seus momentos medianos.

Wahlberg funciona muito bem dando espaço e funcionando como âncora para Bale, que com certeza arrecadará, e com todo merecimento, muitas estatuetas este ano. De resto não há muito o que falar do longa, que não será uma das grandes surpresas de sua vida, mas o fará dar boas risadas nas absurdas brigas de famíla e saltos pela janela de Ecklund, tentando fugir da mesma, já aluciado. Enfim, um bom filme que vende o que é, e por isso não decepciona.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

a árvore, a lágrima e a ideia de adeus

Final de uma manhã de uma sexta-feira de janeiro ainda ensolarada. Encontro meu amigo no centro da cidade e damos um passeio. Sé, Anhangabaú. Rua Sete de Abril. Compro um rolo de filme para minha câmera e subimos a Consolação e, depois de almoçarmos fomos assistir àquela que parecia ser nossa última sessão no cine Belas Artes – que agora finaliza suas atividades dia 28 de fevereiro. Sendo assim, essa crônica não diz respeito ao último filme que assisti, mas da sensação de último, de despedida, de adeus.

Assistimos A árvore, dirigido por Julie Bertuccelli. Bela fotografia de Nigel Bluck, bela Charlotte Gainsbourg. Mas o que prevaleceu em meus pensamentos foi aquela ideia de final. Fotografei alguns ambientes do cinema de rua que está há 68 anos compartilhando com seus frequentadores incríveis histórias e emoções, provocando lágrimas e sorrisos das mais variadas cores e sabores.

Minha tristeza (e com certeza a de muitos ali) se tornou visível no final do filme. Créditos na tela. Luzes já acesas. Escuto o som de alguém chorando. Uma garota de vinte e poucos anos ou um pouco mais que isso, derramava as lágrimas de todos ali. Soluçava. Sem fazer questão nenhuma de esconder sua dor.

O filme não foi triste. Quer dizer. Não seria triste se não fosse o último. Aquela garota que jamais vou me esquecer chorou a dor da perda. Ela foi a última a sair da sala, esperou cair no chão a última lágrima.

A chuva também caía lá fora. A garota tirou o guarda-chuva de sua bolsa e foi embora. Embora para nunca mais.

Eu sei. É um drama.

Mas não é um filme.

A gente queria que fosse. Mas.

E o que resta são as histórias guardadas na memória de cada um.

É um cinema de rua a menos. Conto nos dedos os que ainda sobraram.

Também posso contar nos dedos os dias que faltam para o Belas Artes fechar as suas portas.

O que não conseguiria fazer se fosse tentar contar o número de Cinemarks espalhados pelos shoppings da cidade...

Sabe aquele filme que você torce para nunca acabar?