terça-feira, 24 de janeiro de 2012

um gosto doce da época em não precisávamos ser meninos ou meninas


Moicano de shampoo, relógio de canetinha, jogo da verdade, férias de verão. É dentro dessa atmosfera lúdica que Céline Sciamma cumpre a missão de abordar um tema pouco simples de lidar: a sexualidade na infância, em seu filme mais recente, Tomboy (2011), lançado aqui nessa última sexta-feira 13.

Com uma narrativa descompromissada de certezas, didatismos ou discursos politicamente corretos, o segundo longa da diretora francesa (Seu primeiro filme, Lírios D’água foi lançado em 2008 e contava com uma temática não muito diferente de Tomboy) conta a história de Laure (Zoé Héran), uma garota de 10 anos que, durante a férias escolares muda de casa com sua família para um novo bairro. Lá, ela conhece novos amigos e se apresenta como um garoto, Michaël.

Laure vive com seus novos amigos a experiência de “ser” um garoto: joga futebol sem camisa, troca o chiclete que masca com uma garota no jogo da verdade e brinca pelas trilhas dos arredores; em casa, é a heroína, embora tímida, irmã mais velha que esconde seus medos. Ao longo do filme essas duas identidades não muito distintas se dissolvem numa só com naturalidade, nos mostrando a capacidade e a sensibilidade que Céline tem para dirigir a história (sensibilidade essa que poderia ser comparada apenas com a de uma criança ou de Truffaut em Na Idade da Inocência, sim, preciso desse exagero) que nos faz mergulhar em lembranças ainda concretas de quando tínhamos menos de uma década de idade e inúmeras perguntas sem respostas– tudo sem usar ferramentas para facilitar tal desempenho – como o uso de trilha sonora, que é praticamente inexistente no filme.

Tomboy surpreende pela leveza. O tema sexualidade e a definição de gênero que nos foi imposta desde sempre é tratada de forma tão pedante que até esquecemos que existem maneiras diferentes – ou mais sinceras - ou mais bem humoradas - de questioná-las, como a partir do próprio discurso infantil (a reação da irmã de Laure ao descobrir sua “outra identidade”, por exemplo, é uma quase não reação), que se mostra mais tolerante se comparado a forma “adulta” de se pensar.

Imagem: Divulgação

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