sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

ao caminhar entrevi lampejos de beleza: o cinema de jonas mekas

Jonas Mekas_Screen test, Andy Warhol - Malanga/Warhol
Eu não vejo poesia apenas nas composições de versos e estrofes. Aliás, dessa poesia pouco sei falar. Nos últimos anos a poesia que mais tem me chamado a atenção está dentro do cinema. O Cinema Verité, o Cinema Direto, o cinema de improviso, o cinema sem pretensão comercial.

Durante o mês de fevereiro desse ano, o CCBB SP e Cinusp apresentam os filmes do lituano radicado nos Estados Unidos Jonas Mekas (consulte a programação aqui e aqui).

Pull My Daisy
Na primeira semana da mostra, intitulada com o nome do cineasta, assisti a Pull My Daisy (1959), dirigido por Robert Frank e Alfred Leslie. O filme, que leva o nome de um famoso poema de Allen Ginsberg, faz parte do “Essential Cinema”, coletivo formado por Jonas Mekas, James Broughton, Ken Kelman, Peter Kubelka e P. Adams Sitney. Segundo o folder da mostra, esses artistas tinham com esses filmes (ao todo foram 330 títulos) a pretensão de “definir a arte do cinema”, ao reunir os principais “monumentos do cinema como arte”. Pull My Daisy retrata o cotidiano de alguns membros da dita Geração Beat, como Jack Kerouac, que roteirizou e narrou o vídeo, e o próprio Allen Ginsberg.

Na semana seguinte assisti a um filme que faz parte de uma compilação alguns rolos (o cineasta filma desde 1949 com uma Bolex 16mm) que Mekas gravou no período de 1970 a 1999, chamado Ao Caminhar Entrevi Lampejos de Beleza. Seria indiferente citar o tempo da projeção caso ela não durasse cinco horas (!!!). Vou transcrever abaixo uma citação do Mekas sobre esse filme:

“Meus diários em filme de 1970 a 1999. O filme cobre meu casamento, o nascimento dos meus filhos. Nós os vemos crescer. Imagens da vida cotidiana, fragmentos de felicidade e de beleza. A passagem das estações em Nova York, a vida em casa, a natureza. Nada de extraordinário, nada de especial, coisas que todos nós vivemos ao longo de nossas vidas. Esse filme é também meu poema dedicado a Nova York, seus verões, seus invernos, suas ruas, seus parques.”

Ao Caminhar Entrevi Lampejos de Beleza
Não são todos os fragmentos de filme que contém som direto, o autor, em 1999, quando resolve fazer essa compilação, acaba narrando o filme e colando trilha sonora. Ele conta que sua ideia inicial era de organizar os filmes em ordem cronológica, mas ele acabou editando de maneira aleatória, a medida que ele encontrava os rolos. Ele repete infinitas vezes “Esse é um filme em que nada acontece”, ou ironiza com a frase “Esse é um filme político”, a medida que a tela se preenche com lembranças particulares da vida do cineasta; o nascimento de seus filhos, o aniversário de Dizzy Gillespie, inúmeros pique niques no Central Park, gatos preguiçosos iluminados pela luz do sol, Andy Warhol, seu camarada.

Não só a temática dos diários de Mekas possuem uma atmosfera poética, mas sua opção pela película (16mm) e a forma como ele os edita, resultando numa estética muito pessoal. Ao Caminhar Entrevi Lampejos de Beleza é um filme, como o autor diz, sobre nada, apenas pessoas sorrindo, que nunca brigaram, que se amam. Como gostaríamos de editar nossas vidas. É um filme sobre nada e sobre a vida.

Numa outra sessão assisti Lost Lost Lost, o material que compõe esse longa são seis filmes que Jonas Mekas gravou no período de 1949-63/1976. Abaixo transcrevo um comentário do autor sobre o filme:

"O período que descrevo nesses seis rolos de filme foi um período de desesperança, de tentativas de me enraizar nesta terra nova, de criar novas memórias. Nesses seis dolorosos rolos, tentei descrever os sentimentos de um exilado, meus sentimentos durante aqueles anos. (...). O sexto rolo é uma transição, ele mostra quando começamos a relaxar, quando comecei a encontrar momentos de felicidade.”

O autor em Lost Lost Lost

No filme, Mekas narra como conseguiu comprar sua Bolex e gravar seus diários e de todos aqueles lituanos exilados nos Estados Unidos. Ele conta de maneira melancólica (e tão bonita) sobre seu sentimento de estar ali, sem saber por onde começar sua nova vida. Ele grava os encontros de lazer dos lituanos, das festas, dos casamentos, dos banhos de sol, uma noite de Natal solitária, dos quaisquer empregos que aceitavam para sobreviver ali, naquela terra estranha. E Mekas faz poesia com tudo, faz haicais compostos de imagens e de palavras, narrando o processo de adaptação, dos novos amigos, do seu encontro com o cinema.

 *Essas são apenas minhas impressões sobre alguns dos filmes de Jonas Mekas que assisti, sem consulta a materiais secundários. Para ver a programação da mostra acesse os links que eu citei acima. Apresentando três canhotos de ingressos você ganha um catálogo da mostra.

Vinheta da mostra do Jonas Mekas:



Mais cinema de memória:

Péter Forgács: Um Colecionador De Memórias

Outras mostras de cinema:

Encontros com Woody Allen parte 1, parte 2 e parte final 

Despedidas de cinema:

Domingo sem sol

A árvore, a lágrima e a ideia de adeus

Outros filmes:

Um gosto doce da época em não precisávamos ser meninos ou meninas

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