sexta-feira, 26 de setembro de 2014

cortázar é tudo o que temos

Depois de uma longa caminhada numa tarde ensolarada de quarta-feira entrei no Museo Nacional de Bellas Artes, em Buenos Aires. Queria lavar o rosto e fazer xixi antes de mergulhar naquele universo que estava sendo exposto no local e que foi um dos principais motivos de ter feito aquela viagem: o de Julio Cortázar, através das mostras Los otros cielos e Los fotógrafos: ventanas a Julio Cortázar.

Subi até o segundo andar e perguntei para um senhor de olhar terno e bigode simpático que trabalhava lá onde ficava o banheiro. Ele não só disse onde ficava o local, como se levantou do banco onde estava acomodado e me acompanhou, gentil, até lá perto. Cumprida minha primeira missão, resolvi, então, começar a visita naquele piso, onde se encontrava uma sala com várias fotografias do escritor. Não tenho o costume de fotografar o acervo das exposições que visito, mas a ocasião era mais que especial, então fiz questão de registrar aquilo.

Quando saí da sala para retornar ao piso inferior, o senhor que me mostrou o caminho do banheiro veio em minha direção:

Desculpe a intromissão, mas vi você fotografando os retratos do Cortázar, você deve gostar muito dele, não é?
Respondi que sim.

Você não pode deixar de visitar o restante da exposição. Tem até uma máquina de escrever dele.

Sim, pode deixar. Eu vim aqui exatamente para isso.

De onde você é?

Disse que tinha vindo de São Paulo, que aquele era o meu primeiro dia na cidade e que minha intenção era visitar as exposições que comemoram o centenário do escritor (Año Cortázar 2014). Ele ficou muito feliz e, sorridente, agradeceu por eu ter feito essa “gentileza”.

Falamos sobre como gostamos da maneira ritmada que Julio escrevia, sobre o jazz... e acabei falando que eu gosto muito de escrever e que ele é uma grande referência para mim.

Eu sabia, eu vejo nos seus olhos uma sensibilidade e uma boemia que só os escritores têm.

Eu sorri e disse que ia seguir a visita. Ele me deu boas vindas, desejou sorte e tudo de melhor na minha vida.

Encerrou declarando seu amor pelo escritor:

Cortázar é tudo o que temos.

Acho que é tudo o que eu tenho também.

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